Antonio Machado
Economia global se aquece, prevê Banco Mundial, mas sem ferver. O comércio voltará a crescer

PIB mundial deve sair de queda de 2,2% em 2009 para expansão de 2,7%. Volume do comércio sobe 4,3%

21.01.2010 - 19:35

Antonio Machado

O comportamento da economia global será de alívio o ano inteiro, com a hipercrise do crédito perdendo força, mas sem recuperar nem sinalizar o retorno ao tempo de euforia do dinheiro barato e farto da última década, que incitou o endividamento nos EUA, os déficits na Europa e o apogeu dos países emergentes, Brasil entre eles.

O retrato revisto da economia mundial está nas novas projeções do Banco Mundial para 2010 e 2011. Uma palavra as resume: cautela. O Produto Interno Bruto (PIB) global, segundo prevê o Banco Mundial, passará de retração de 2,2% em 2009 para expansão de 2,7% em 2010 e 3,2% em 2011, ampliando-se o ritmo de crescimento dos países em desenvolvimento, sobretudo China e Índia, em relação aos ricos.

Os desenvolvidos passariam de expansão de 0,4% em 2008 e de queda de 3,3%, no ano passado, para crescimento de 1,8% e 2,3% em 2010 e 2011, respectivamente. A Europa do euro continua patinando, já que o PIB da área não conseguiria passar de 1%, depois de recuar 3,9% em 2009. Japão, segunda economia global e prestes a perder o lugar para China, deve seguir assombrado pelo fantasma da estagnação.

No mapa do Banco Mundial, o PIB japonês cresce somente 1,3% este ano, vindo de formidável mergulho de 5,4%, a maior recessão entre os países desenvolvidos, seguida da Alemanha, cujo PIB recuou 5%.

Os países em desenvolvimento, em contrapartida, voltam a aquecer as turbinas. Em média, saíram de expansão de 5,6% em 2008 para um tímido crescimento de 1,2% no ano passado, que, na futurologia do BIRD, sigla do nome formal do Banco Mundial, se potencializará em aumentos de 5,2% este ano e 5,8% em 2011, quase o triplo do ritmo de evolução do PIB dos ricos, mas 30% abaixo do que era até 2007.

Neste cenário, a economia chinesa deverá exibir taxas de expansão moderadas em relação ao passado recente, quando crescia acima de dois dígitos, mas ainda impressionantes: 9% este ano e no próximo, contra 8,4% em 2009, 9% em 2008 e 13% em 2007.

Índia vem logo em seguida, com crescimento projetado de 7,5% este ano e 8% em 2011, vindo de previsto 6% ano passado, e de 6,1% em 2008 e 9,1 em 2007.

Rússia, terceira perna do acrônimo BRIC, dos emergentes a caminho de virarem potências neste século, regrediria ao ponto de partida, da débâcle da União Soviética. O PIB russo entrou na economia de mercado surfando na onda do petróleo. O crédito colapsou, furou a bolha das commodities, e ela afundou.

O PIB desabou estimados 8,7% em 2009, vindo de aumentos de 8,1% em 2007 e 5,6% em 2008. O BIRD projeta crescimento anual do PIB russo em torno de 3% até 2011.

Bola fora com Brasil

Surpreendentemente, o observatório do Banco Mundial é comedido em relação à economia brasileira. No boletim semanal Focus, do Banco Central, com as projeções de uma centena de consultorias e bancos, o PIB cresce 5,3% em 2010 e 4,5% em 2011, explicando-se a redução de ritmo interanual pelo previsto aumento dos juros para antecipar pressões inflacionárias e o alargamento dos déficits externos.

Tal cenário se choca com o do BIRD, que projetou estabilidade do PIB brasileiro no ano passado (+0,1%), e crescimento de 3,6% este ano e 3,9% em 2011, contra 5,7% em 2007 e 5,1% em 2008. O provável é que os dados do Banco Mundial estejam atrasados. A série do PIB foi revisada pelo IBGE, o que também confunde economistas no país.

IBGE confunde o BIRD

A expansão do PIB em 2007 atualizada pelo IBGE foi de 6,1%. A de 2008, 5,8%. Para o 3º trimestre de 2009, tal evolução levaria a um desempenho que se revelou menor do que o previsto pela maioria dos consultores e até pelo Ministério da Fazenda.

Não será a bola fora do BIRD quanto ao PIB brasileiro, até porque explicável, que vai ameaçar a sua futurologia. O Banco Mundial vai atualizá-la em linha com a atual previsão de consenso do mercado. Relevante nessas projeções é mais a tendência que a precisão. E aí há razões para otimismo e também para prudência.

Não dá para relaxar

O mundo vai tirar inequivocamente o pé da recessão, em boa parte pelo ativismo dos mercados domésticos das economias emergentes, o caso do Brasil, e a recuperação do comércio mundial, poesia para a China e seus satélites da Ásia.

Na conta do BIRD, depois da queda chocante de 14,4% em 2009, o volume do comércio global deve subir 4,3% este ano e 6,2% em 2011. Mas o dinheiro ficou curto para todo mundo, dos EUA a Brasil.

As facilidades devem diminuir com a maior supervisão bancária. E há a tendência de que encareça pelo inchaço da dívida dos Tesouros nacionais no pós-crise. Há países quebrados virtualmente, como Grécia, ou ameaçados por bolhas, como China. É tempo para suspirar aliviado, mas ainda não para relaxar.

Conselhos já adotados

No capítulo dos conselhos, os economistas do BIRD são cautelosos. Um deles diz que, “à medida que as condições financeiras se tornem mais rigorosas, as empresas nos países em desenvolvimento devem enfrentar custos de crédito mais elevados, volumes mais baixos e queda do fluxo mundial de capitais”.

Por isso, recomenda outro, os países devem promover seus próprios mercados de capitais, além de “melhorar a concorrência e regulamentação dos setores bancários”.

Conforta saber que tais questões são consideradas centrais pelas assessorias dos presidenciáveis Dilma Rousseff e José Serra. Isso pelos que estão liberados de promover encenações para o eleitor.


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