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Antonio Machado |
Políticos se engalfinham pelo pré-sal, riqueza que a Petrobras vai tornando real sem alarde Foco do debate está equivocado para o que exige US$ 300 bilhões de investimentos só para começar 15.08.2008 - 18:53 Antonio Machado Enquanto os políticos sonham planos mirabolantes para o petróleo submerso, abaixo da formação geológica na costa de São Paulo e do Rio conhecida por pré-sal, a Petrobras vai fazendo o seu trabalho conforme a disponibilidade de equipamentos de exploração, escassos no mundo, e as extremas dificuldades do trabalho de prospecção em águas profundas e tão distantes do litoral. O presidente da estatal, José Sérgio Gabrielli, tem segurado bem a onda. Pelo menos até agora os quadros da empresa se mantém a uma prudente distância tanto da disputa pelos royalties potenciais da exploração do pré-sal - pelos quais já se engalfinham os políticos do Rio e São Paulo e começam a pipocar projetos na Câmara e Senado para fatiar a riqueza nem sequer avaliada com segurança -, como do tom ufanista dado pelo presidente Lula à descoberta, embora mesmo ele se policie, pois sabe não ser a hora para fogos de artifício. Pela prestação de contas regular de suas atividades, a Petrobras informou que completa em setembro o programa de sondagem no campo de Tupi, anunciado em novembro passado, sobre o qual a expectativa é que contenha de 5 a 10 bilhões de barris de óleo equivalente. Se provada a vazão, será a maior descoberta nas Américas desde 1976. Outros três campos contíguos a Tupi estão em fase final de testes para confirmar o antecipado pelas sondagens sísmicas, permitindo, segundo Almir Barbassa, diretor-financeiro da estatal, o projeto de “exploração mínima” dos blocos do pré-sal em Santos licitados pela ANP, Agência Nacional do Petróleo, começando no fim de 2009. Os blocos do pré-sal na Bacia de Santos podem ou não formar uma área única. Nela, a Petrobras detém os direitos de exploração para operação isolada ou associada a outras sete petroleiras, como a portuguesa Petrogal, a espanhola Repsol e a americana Exxon. Esta é uma informação crucial para o negócio. Se a área total do pré-sal da Bacia de Santos, chamada pela Petrobras de “pólo pré-sal”, formar um depósito único, e é grande a chance de que seja, a exploração será conjunta, com a “unitização”, segundo o jargão, de todos os blocos. Os detentores dos direitos de exploração terão de se pôr de acordo. Algo trabalhoso, mas previsto pela ANP. Da extensão total do pólo pré-sal, dentro do qual estão os campos de Tupi, Júpiter e Carioca, entre outros, a maior parte não chegou a ser licitada. Pertence, portanto, à União. E nele a expectativa, havendo de fato um campo gigante, é que haja de 50 a 80 bilhões de barris de petróleo e gás. Trata-se de um potencial de receita tão grandioso quanto o investimento necessário para viabilizá-la. O esforço é brutal O programa de investimentos da Petrobras prevê a contratação até 2018 de 63 plataformas de águas profundas para ancorar nos campos do pólo pré-sal. São equipamentos caros, indisponíveis para pronta entrega. Os estaleiros brasileiros, hoje, podem dar conta de umas quatro. Cada uma delas leva até quatro anos para estar pronta. Além disso, há necessidade de navios sonda. Estima-se em 18, dos quais hoje dá para construir quatro a seis no Brasil. Mais barcos de apoio e a logística do fluxo do petróleo ou gás extraído desde a plataforma em alto mar até a terra e daí por oleoduto ou para as refinarias ou os terminais de exportação apropriados para operação de superpetroleiros que exigem calado profundo. Um esforço brutal. Fazer 58 anos em 10 A estrutura para extrair o petróleo do pré-sal fará a operação na Bacia de Campos, fonte do grosso da produção atual de 2 milhões de barris/dia, parecer uma obra em miniatura. Para adicionar o mesmo volume a tal produção, dobrando-a em até dez anos, serão exigidos investimentos estimados pela Petrobras em US$ 300 bilhões somente na indústria. A nacionalização de boa parte da produção equivale a duplicar em dez anos o parque industrial brasileiro já existente, que levou 58 anos, contados desde 1950, para ser construído. Nosso é. Mas e daí? A dimensão ciclópica de tais números deveria nortear a reforma da política do petróleo, não a receita possível de apropriar no pré-sal. É algo da ordem da US$ 25 bilhões anuais às alíquotas atuais, 55%, e 2 milhões de barris/dia a US$ 80 cada. Mas tal renda, que pode quadruplicar, depende da produção, função do investimento, o que o país não dispõe no volume adequado. Não se discute: o pré-sal é nosso. Monetizá-lo pelo padrão saudita é que serão elas. Como lhe é recorrente, o governo pôs na rua cedo demais um debate sobre o qual ainda não firmou convicção nem se preparou, deixando-se por isso levar por pressões. Uma delas prevê uma nova estatal com a missão apenas de gerir a propriedade dos campos, tratando a Petrobras como uma prestadora de serviços, afora as áreas de que já dispõe no pré-sal, adquiridas nos leilões da ANP. Por ora, é a proposta que encanta o presidente Lula. Emula o modelo da Noruega. Já há um ácido conflito por causa da Petrosal, apelido da suposta estatal. É puro desgaste. Se o retorno pelo serviço de exploração for atraente, com risco baixo, como na Noruega, as petroleiras vão lamber os beiços. À base do tudo para nós, o resto “procês”, como na Venezuela, que exige 80% da receita bruta por barril, o pré-sal será só isso - algo salgado demais para abrir o apetite da própria Petrobras. No fim, tudo é questão de preço, lucro e segurança. Só. |
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