Antonio Machado
Embora ansiado pelo governo, investment grade insere dificuldades ao desempenho da economia

Decisão da Standard & Poor’s aparta o Brasil do cenário ruim que varre o mundo, mas deve apreciar mais o real

01.05.2008 - 19:03

Antonio Machado

Foi surpreendente. Prevista na melhor das hipóteses para o final do ano, a promoção do nível de crédito do Brasil para o primeiro degrau da escala de investment grade pela Standard & Poor’s (S&P), a maior da trindade de agências globais de análise de risco, tem o efeito de apartar a economia brasileira do cenário de borrasca que varre o mundo e insere dificuldades adicionais ao seu desempenho.

O governo vai tirar proveito dessa decisão inédita na história do país, e o fará com justiça. Aconteça o que for daqui para frente, ela entroniza o presidente Lula na galeria das mais bem-sucedidas Presidências de todos os tempos. O mérito do investment grade é um privilégio de poucos. Entre os países desenvolvidos, como EUA e os europeus, todos o têm, e nem tiram partido dessa condição.

Para eles, não faz tanta diferença como a S&P, ou a inglesa Fitch e a também americana Moody’s, avalia suas contas nacionais, já que têm outros atributos econômicos e sociais para lastrear a solidez das emissões públicas e privadas de seus papéis – o que, em última instância, é o sentido das notas de crédito das agências de risco.

Para os demais países é muito país: significa acessar o circuito dos mercados financeiros globais em condições mais vantajosas em juros e prazo. E são poucos, muito poucos, os investment grades: apenas 14 países emergentes, Brasil já incluído, na medida da S&P, segundo a sua diretora no país, Lisa Schineller. Se Lula já andava prosa com a sua popularidade recorde, agora nada mais o segura.

É claro que a graduação do crédito brasileiro reflete decisões já tomadas na economia, com destaque para a acumulação de reservas de divisas em volume maior que a dívida externa total. A separação de um naco da receita fiscal para formar o superávit primário usado para abater parte dos juros da dívida pública, reduzindo assim sua relação sobre o Produto Interno Bruto (PIB), é outro realce - tanto quanto o desassombro do Banco Central frente à inflação.

Racionalidade sutil

Tudo isso foi dito pela diretora da S&P ao justificar a promoção do crédito do Brasil, sustentando uma visão de futuro da economia mais otimista que a ouvida de economistas brasileiros. Mas não se tome tal decisão apenas pelo que ela é em termos financeiros.

Há uma racionalidade mais sutil e menos comentada por trás dela, que vem embutida como moeda de troca. O investment grade contempla um modelo de economia aberta e práticas monetárias compatíveis com as idealizadas pelo Banco Central, não com a média do pensamento de muitos integrantes do governo, como o ministro Guido Mantega, e seguramente discordantes com tudo o que PT defende oficialmente.

Visões conflitantes

O que para os críticos é defeito para a S&P merece elogios, como o reinício do ciclo de aperto da Selic. Para a S&P, tais decisões sustentam o crescimento econômico em vez de ameaçá-lo. A previsão é que o PIB cresça 4% a 4,5% em 2008, obra da “pragmática política macroeconômica”, nos termos de Lisa Schineller.

“Em contraste com pressões inflacionárias incontroladas em outros (países) soberanos com ratings menores, o Banco Central do Brasil iniciou um ciclo de aperto para garantir que benefícios duramente conquistados associados à inflação baixa sejam mantidos", disse ela.

Isso é um pouco diferente de atribuir a promoção do crédito ao ajuste fiscal, como avaliam os estruturalistas do governo. E é por desconfiar desse ajuste que a Moody’s avisou que vai esperar.

O embaraço do real

Menos mal que, ao lado da satisfação, até o presidente Lula tenha admitido que a decisão vai valorizar o real, pois mais dólares vão entrar no país. Quanto mais apreciado estiver o real, mais difícil será exportar. Diminui a margem do governo para gastança fiscal. E mudanças abruptas, nem pensar. Não será fácil ao governo conciliar o que ansiou com o que faz - e isso determina os próximos passos.

Os receios já estão postos. É “ótimo para o ego do Brasil, mas é muito ruim para o comércio exterior”, reagiu o vice-presidente da AEB, principal entidade dos exportadores, José Augusto de Castro.

O que ele teme surgiu rápido nos terminais conectados ao câmbio: o derretimento do dólar, que despencou para R$ 1,663. Há muito de oportunismo, já que há tempos estava precificada na taxa cambial o efeito do investment grade, mas a tendência não é de reversão.

O provável é que a esperada desvalorização vinda do aumento dos déficits em conta corrente se anule pela maior entrada de capitais para aplicação em papéis de renda fixa e ações. Os investimentos diretos também devem crescer, como prevê a S&P. A questão é para que fim. Se o governo demorar para expor um plano convincente para o comércio exterior, corre-se o risco de as multis voltarem a se fechar no mercado interno, como faziam até os anos 90 no Brasil.

O país será cuspido das cadeias de processamento global, se a resposta contra isso tardar. Ela já está explícita: tem de baixar drasticamente, no limite zerar, a tributação sobre as exportações e os insumos que as abastecem. Ao mesmo tempo, tem de haver uma contenção séria do gasto público, tanto para sobrar caixa para as desonerações como para desafogar o BC e permitir a queda da Selic.

É uma outra economia com um mesmo governo. Se tal compreensão não estiver clara, o investment grade fará muito mal ao Brasil.


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