Antonio Machado
CNT/Sensus mostra a fortaleza da popularidade de Lula e a fraqueza da continuidade do lulismo

Dado mais curioso da pesquisa é que intenção de votos em Lula hoje é a mesma de sua votação em 2002

29.04.2008 - 18:28

Antonio Machado

O dado mais perturbador da pesquisa encomendada pela Confederação Nacional dos Transportes (CNT) ao Instituto Sensus é que persiste, cinco anos e seis meses depois da eleição de 2002, a mesma divisão eleitoral entre os seus dois principais protagonistas.

Na simulação de uma hipotética eleição, hoje, entre o presidente Lula e o governador de São Paulo, José Serra, que em 2002 mediram forças em segundo turno, o Sensus encontrou os mesmos percentuais.

Lula continuaria vencendo, com 58,8% das intenções de voto contra 61,3% da votação recebida em 2002. E Serra teve 41,2% na pesquisa e 38,7% no segundo turno de 2002. As oscilações de um e de outro estão dentro da margem de erro de 3 pontos percentuais da enquete.

De lá para cá, Lula administrou um país bafejado com os melhores indicadores econômicos e sociais dos últimos cinqüenta anos, fruto da convergência de boas políticas com o excepcional desempenho da economia global, fazendo por merecer, segundo a métrica do Sensus, uma avaliação raríssima: a aprovação ao governo em segundo mandato ser maior que em janeiro de 2003, respectivamente, 57,5% e 56,6%.

Já Serra se recuperou da derrota em 2002 elegendo-se prefeito de São Paulo, em 2004, e governador do estado em 2006, sua opção após levar uma rasteira de seu rival do PSDB paulista, o ex-governador Geraldo Alckmin, que o impediu de ir à forra contra Lula. E ainda continua sua pedra no sapato, estorvando as tratativas para compor uma ampla frente - que já atraiu o PMDB do ex-governador Orestes Quércia -, para reeleger o prefeito Gilberto Kassab, do Dem. Como o chato do partido, Alckmin quer concorrer contra Kassab.

A paridade de intenções de voto entre a sondagem de hoje e o dado real de 2002, diante da indicação do Sensus segundo a qual 50,4% concordam em mudar a Constituição para permitir a Lula disputar a re-reeleição, contra 45,4% que são contra e 4,3% que não souberam responder, fornece pistas sobre o que vai à alma do eleitor.

A óbvia é que a parcela majoritária do eleitorado está satisfeita com Lula. Menos óbvia é que ele não conquistou para o petismo os eleitores que sublimaram as divergências com sua antiga retórica e resolveram experimentá-lo em 2002 e ratificar a escolha em 2006. É uma hipótese também de que seu potencial de transferência de votos para eleger um poste, como se diz, depende dos oponentes.

No teto da votação

O que se deduz dessas preliminares do sentimento do eleitorado, a trinta meses da eleição presidencial de 2010, é uma conclusão mais polêmica: que o potencial máximo de votos em Lula não se alterou, substancialmente, desde 2002.

Visto de outro modo, significa que aos votos petistas, avaliados genericamente como um terço do total do eleitorado, Lula adiciona a parcela flutuante que o elegeu duas vezes conforme seja o nome do adversário.

Se o PT não é caudatário natural desses votos, e ele está impedido de pedir a sua terceira eleição, o panorama de 2010 provavelmente ficará indefinido até quando já vá longe a campanha sucessória.

Sem herdeiro formal

Os dados do Sensus parecem mostrar a fortaleza da popularidade de Lula e, ao mesmo tempo, a fraqueza de sua continuidade – que não é de hoje, já que nunca permitiu o surgimento de herdeiros no PT nem a adaptação da linha programática do petismo ao pragmatismo de seu governo.

O PT, oficialmente, se diz socialista, como ratificou em sua última convenção, e acomoda tendências díspares. Só que a sua prática partidária o leva a destinos contraditórios com o caminho para lá de bem-sucedido de Lula, que não deixa que nada o abale.

Para todos os gostos

Na prática, não há um partido, mas uma federação de alas. Algumas são verdadeiros minipartidos. Segundo o ex-deputado Paulo Delgado, do PT de Minas, vive-se no país uma “esquizofrenia socializante”, com “invasão do território da legalidade privada”. Mas os bancos nunca ganharam tanto dinheiro e o lucro empresarial é recorde.

O grande empresário é intimo de um governo em que ministros querem tributar a riqueza e limitar o tamanho das fazendas. Há um Banco Central conservador e repartições que só querem desestabilizá-lo.

Não espanta, assim que, embora discurse todos os dias para sair na TV e manchetes dos jornais, encarnando um governo palanqueiro, Lula seja palatável para todos os gostos. E, no entanto, tenha em 2008 a mesma intenção de voto de 2002.

Lula parece ser mais um fenômeno eleitoral de si mesmo que de um movimento de forças engajadas numa missão cujo alcance o fizesse líder de projetos reformistas. Ele construiu em sua ascensão um vácuo, cujo legado, o tal “pós-Lula” a que se referiu o governador Aécio Neves, será intensamente disputado, sem que se reconheça um herdeiro autêntico, ainda que indique alguém para 2010.

Da ministra Dilma Rousseff, de quem encheu a bola ao fazê-la “mãe do PAC”, por exemplo, disse que “é uma figura extraordinária para gerenciar”, mas “ser candidata à Presidência é outra conversa”.

Os carinhos de Lula têm data de validade. Mas que o PT não ponha sobre seus ombros todo o peso do processo. A verdade é que, afora alguns líderes, o partido nunca deixou de ser uma caricatura de Lula, sem nunca entender bem o significado de sua liderança para o país. Podia ter se reinventado, e preferiu continuar incoerente.


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