Antonio Machado
Mercadante vai a Aécio e Pimentel entender o que os motiva a unir PT e PSDB em Belo Horizonte

Parceria pode levar a uma agenda convergente, capaz de desobstruir o Congresso, e chegar até 2010

06.03.2008 - 18:09

Antonio Machado

Os caminhos da política brasileira de alto nível começam a fazer de Belo Horizonte um dos centros de gravidade dos grandes debates nacionais como não se via desde Tancredo Neves pelas artes de seu neto e ex-secretário, o governador Aécio Neves, um dos príncipes do tucanato, e do prefeito Fernando Pimentel, petista em ascensão.

O senador Aloizio Mercadante, presidente da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado e ex-líder do governo Lula, não se acanha em avaliar o projeto em construção pelos dois como a “única atividade relevante” que assistiu no último mês, passado num hospital onde se recuperava de cirurgia. O recesso, segundo ele, que já voltou a Brasília, lhe permitiu olhar o horizonte da política sem se pôr inserido no cenário. O que viu lhe pareceu renovador e excitante.

Mercadante desembarcou ontem em Belo Horizonte para conhecer em detalhes o senso deste cruzamento inusitado entre adversários, precisamente no momento em que PT e PSDB, com seu aliado histórico Dem, começam a se enfrentar na CPI mista dos cartões corporativos e puseram o Congresso, outra vez, em temperatura máxima.

Olhando-se os discursos do presidente Lula e os duros ataques dos líderes tucanos, não há, em princípio, nada que os concilie. E, no entanto, Aécio e Pimentel, para desconforto das direções nacionais de PSDB e PT, decidiram construir um projeto comum para a disputa da prefeitura da capital mineira nas eleições de outubro. Se forem a voto com um candidato comum, dificilmente perderão, baseando-se na altíssima avaliação que ambos partilham em todas as pesquisas.

O senador petista, que foi candidato a vice-presidente na chapa de Lula na eleição de 1994 e, embora derrotada na disputa para o governo de São Paulo em 2006, é um dos nomes mais emblemáticos do PT, irá ao encontro de Aécio, levado por Pimentel, a quem pediu que organizasse a reunião, interessado nos lances de maior alcance da dupla. Sua intenção não é discutir o quadro eleitoral em Minas.

“O que me atrai são os elementos programáticos comuns”, diz ele. “O mundo está em crise, há transformações ainda não compreendidas muito bem nas economias dos EUA e Europa em contraponto ao forte crescimento dos emergentes. Os desafios tecnológicos são enormes, tem o problema da energia, integração regional - e para enfrentar tudo isso e promover as mudanças que nos consolidem numa linha de liderança global o país precisa de diálogo e convergência.”

Questões de urgência

As perplexidades que varrem o mundo e repercutem no Brasil são de ordem econômica, tecnológica e social, mas a resposta primeira, no entendimento de Mercadante, está na política. Tais questões exigem urgência, só que este senso, para ele, falta ao Congresso devido à exacerbação da disputa partidária e do predomínio dos interesses miúdos.

Embora tenha se tornado mais conhecido como o porta-voz do PT para a economia, ele hoje enfatiza mais construções que favoreçam a coesão política em favor do desenvolvimento econômico e social que soluções de conteúdo eminentemente técnico.

Trajetórias afins

O caminho em curso por Aécio e Pimentel transcende o dia a dia da política convencional, algo que o PT de Lula, Mercadante e outros petistas ilustres, incluindo dois ex-deputados mineiros hoje meio afastados do debate, Sandra Starling e Paulo Delgado, tinham como objetivo de longo prazo e o vinham em comum com o PSDB.

Isso até que o mensalão rompesse o flerte, que envolvia nos dois partidos vários personagens com trajetórias afins e seguramente muito mais coerentes que atuais parceiros do PT, como os partidos de direita.

Mercadante não acha que agora esta seja a agenda principal. “As diferenças existem e devem ser explicitadas, o que não significa que não possa haver convergência em torno do mérito de diversos problemas nacionais”, diz. “Não se trata de cooptação.”

PT e PSDB desconfiam

Não há acolhida fácil para tais intentos no PT e no PSDB - ainda mais com a sucessão presidencial em 2010 devendo ser travada, não havendo acidentes até lá, sob a sombra da popularidade de Lula. De novo, Mercadante vê no processo aberto em Minas possibilidades de superação do conflito pontual.

Uma agenda programática comum, diz ele, além de elevar a qualidade da disputa política, já estaria de bom tamanho se resultasse em menos polarização no Congresso. Vale a pena tentar. Como está é que não pode e ninguém ganha.

O risco de um processo centrado em figuras, não em plataformas de programas, como vem se acentuando na política, já levou ao virtual descolamento de Lula do PT e faz de cada parlamentar senhor de seu próprio voto, independentemente do partido a que esteja filiado, é o aprofundamento do fisiologismo, com a completa desmoralização do Congresso.

O Executivo também se macula, pois só governa se entrar no jogo, loteando o ministério e a direção de estatais e liberando os recursos orçamentários, num processo mútuo de chantagem.

O nivelamento por baixo da política impede a formação de projetos nacionais, segundo Mercadante, e fomenta a cultura denuncista. Sem programas alternativos a disputar a atenção do eleitor, diz, o que resta é o fratricídio de reputações e projetos políticos pessoais. Ao superar rivalidades, Aécio e Pimentel agitam o marasmo e traçam um caminho. Mercadante quer levar tal idéia para o plano nacional.


versão para impressão envie a um amigo


  Antonio Machado


Parceiros
Energia Mídia © Todos os direitos reservados