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Antonio Machado |
Chuvas fortes afastam risco de apagão, mas suprimento de energia continuará crítico até 2011 Energia hidráulica, responsável por mais de 70% da oferta, está na conta certa das necessidades 21.02.2008 - 19:37 Antonio Machado As fortes chuvas no sul e sudeste, neste início de fim de verão, mais uma vez chegaram a tempo de repor o nível de água dos grandes reservatórios das hidrelétricas, afastando os riscos de quebra do fornecimento de energia elétrica. O país está há tempos à mercê de uma mistura indigesta para a economia girando a plena carga. A energia hidráulica, responsável por mais de 70% da oferta, está na conta certa das necessidades de consumo, o que a torna refém da situação climática. Assim continuará até que entrem em operação as usinas em construção ou em fase de licitação, sobretudo as duas do complexo do Rio Madeira, previstas para depois de 2011. As termelétricas instaladas desde o apagão de 2001 como o seguro contra emergências dependem do gás fornecido pela Bolívia, que se tornou um fornecedor inconfiável. Nem sequer consegue atender suas próprias necessidades, situação agravada pela inepta estatização do seu setor petrolífero e a conseqüente fuga dos investidores, e se comprometeu com a Argentina, que também vive o seu apagão. O governo de Evo Morales confiscou ativos da Petrobras, o que fez com a desnecessária tomada das duas refinarias da estatal no país pelo exército, pagou por eles abaixo do valor investido e quer que Lula a convença a receber menos do que se obriga a fornecer por contrato: até 30 milhões de metros cúbicos por dia. Não quer nada. Esta equação entre a oferta e a demanda de energia é instável. Só se equilibra no limite, pendura-se na sempre errática condição do clima e torna arriscado o crescimento econômico forte nos próximos anos. Desde 2001 houve tempo para que se fizesse da construção de novas fontes de energia, inclusive nuclear, uma prioridade. Mas se perdeu muito tempo com a remodelagem do setor durante a gestão da ministra Dilma Rousseff - além de o governo ter apostado errado na eleição de Morales, certo de que teria nele um parceiro. Não se sairá dessa situação tão cedo, o que cria a insegurança de um descompasso energético a qualquer momento até a próxima década, como alertou o diretor-geral da Aneel, Agência Nacional de Energia Elétrica, Jerson Kelman, semanas atrás, contrariando Lula e Dilma. Lula garantiu que a economia pode crescer “5% e até um pouco mais sem problemas de energia” e o então ministro das Minas e Energia, Nelson Hubner, foi categórico: “Está descartado um apagão elétrico em 2008 e 2009”. O atual ministro Edison Lobão ainda se informa. Receios do governo Na verdade, não há divergência alguma no governo quanto ao alerta de Kelman. Discordou-se apenas de que ele desse visibilidade para o problema. A questão foi politizada. Lula receia que a oposição se aproveite para criar barulho e bater bumbo, instalando a percepção de que o racionamento de energia seria iminente, ainda que esse risco seja uma hipótese, possível, mas não determinada. Além disso, há sinais de que a ministra Dilma toma essa discussão como contestação ao seu modelo de gestão dos insumos energéticos, o que é um exagero. Debate abafado Tal ambiente abafou o mais relevante: o debate sobre a curva da demanda vis-à-vis a da oferta, que era o sentido da advertência de Kelman, e a partir daí tomar as soluções cabíveis. A médio prazo o problema será resolvido com a aceleração de investimentos em novas hidrelétricas e na exploração das reservas de gás constatadas pela Petrobras nas Bacias de Campos e Santos, permitindo que se tire a Bolívia da tomada ou, o mais provável, leve o vizinho a negociar sem a pretensão de ser tratado como “companheiro”. Cortar desperdício Ainda assim, para que a economia siga crescendo à média de 5% ao ano, espécie de consenso político e empresarial, serão necessários investimentos para gerar mais 3,5 mil megawatts anuais anos a fio. Para tal, o investimento público está exaurido, o setor privado precisa de financiamentos não equacionados, será preciso mobilizar a entrada de novos empreendedores no setor e sem outras fontes de energia, como a nuclear, e relaxamento pontual do rigor ambiental, no caso de hidrelétricas, não se resolverá o problema. O que fazer até que se achem as respostas para a complexidade de tais questões é sabido. Trata-se de adotar um amplo programa de produtividade na geração de energia e no consumo - das fábricas às residências. Há muito desperdício e dinheiro gasto à toa. Só falta o governo não se ver condenado pelo que fizer. Voltaremos ao tema. |
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