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Antonio Machado |
Se é incerto que se amplie o coice da inflação, soa mal prever que a Selic vá aumentar em 2008 Planejar o pior para a inflação é dever de ofício. Não o é já dar como certo o que não passa de hipótese 15.01.2008 - 17:46 Antonio Machado O aumento de 4,46% do Índice de Preços ao Consumidor Amplo, IPCA, no ano passado, interrompendo quatro anos seguidos de queda desde 2002 - e muito perto da meta anual de 4,5% -, destaca um fenômeno facilmente esquecido quanto mais longo o período de estabilidade dos preços: que a política antiinflacionária é sempre um processo inacabado. O diabo é que tomam o que tem todo jeito de passageiro como permanente, o que põe em causa a eficácia do Banco Central em conjurar o problema e alimenta conjecturas sobre aumento da Selic. A piora do cenário de inflação é real, mas está longe de sugerir um quadro já definido. Se o aumento tivesse sido - e indicasse que continua sendo - amplo e disseminado por todos os preços, haveria motivos para se suspeitar de perda de controle e leniência do BC. Não foi isso o que ocorreu nem é o se vê no horizonte. Para começar, a dieta da Selic, iniciada em setembro de 2005, seu último pico, a 19,75% ao ano, está suspensa desde outubro último, quando chegou a 11,25%. O BC parou os cortes por suspeitar de que a batida do consumo vinha forte demais, movida à recuperação dos salários e do emprego, além de expansão do crédito graças a juros menores e prazos de financiamento maiores. A queda da taxa nominal foi graúda desde 2005, equivalendo a 8,5 pontos de percentagem. Hoje, a Selic é a menor em base histórica. Em termos reais, porém, com a exclusão do IPCA de doze meses até dezembro, ainda dá uma taxa bem alta, 6,5%, praticamente colada à maior do mundo, da Turquia, de 6,55%. Não é a Selic o problema. À dinâmica maior do consumo se somou a pressão de alta dos preços dos alimentos, de modo que, da variação de 4,46% do IPCA em 2007, a parte da inflação da comida correspondeu a um aumento de 10,79%, enquanto a expansão de todos os demais preços se limitou a 2,83%. O que houve com a alimentação foram realinhamentos de preços em razão de anos de contribuição para a redução da carestia. Em 2006, por exemplo, a inflação da comida foi de apenas 1,2%. Os preços de alimentos ao consumidor, desde o Plano Real de julho de 1994 até 2005, segundo pesquisa do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Escola de Agricultura Luiz de Queiroz, caíram 40% em média no índice do custo de vida e se mantiveram em queda em 2006. Comida não foi vilã O barateamento da comida beneficiou especialmente as classes C, D e E, implicando para a agricultura uma transferência de renda, sob a forma de receita não realizada, de quase R$ 1 trilhão – dinheiro apropriado diretamente pelos setores empobrecidos da população e transformado em aumento de poder aquisitivo de bens industriais e serviços. O exportador foi menos onerado, pois contou depois de 1999 com o real desvalorizado. O incentivo se foi com a apreciação cambial. Mas desde 2007 o mesmo fenômeno altista observado com o petróleo e commodities metálicas pela expansão da economia da Ásia se estendeu ao campo, beneficiado pela incorporação de milhões de pessoas desses países, sobretudo da China, ao mercado consumidor. BC avalia o cenário Parte do aumento dos preços agrícolas é conjuntural, passível de reversão, portanto, que já aparece com a desaceleração de vários deles, como se constata pela evolução do Índice Quadrissemanal de Preços Recebidos pela Agropecuária, compilado pelo Instituto de Economia Agrícola de São Paulo. O aumento de preços pelos fatores internacionais tende a ser permanente. O que deverá fazer o BC? A ação é deixar escoar tais aumentos pela economia, pois representam mudança de preços relativos permanente, e impedir seus repasses às demais atividades – a clássica espiral de preços. O BC avalia é se a manutenção da Selic no atual patamar, acoplado aos aumentos de alíquotas do IOF e da CSLL que vão encarecer o crédito, basta para reduzir o ímpeto do consumo sem chegar a abortá-lo. Não é certo o pior Planejar o pior para a inflação é dever de ofício. Não o é dar já como certeza o que não passa de hipótese, e daí formular previsões pessimistas para a trajetória da Selic. A área econômica do Banco Itaú prevê que o BC movimentará a Selic já em março, levando-a no fim do ano a 12,75%, mais 1,5 ponto percentual sobre seu nível de hoje, e a consultoria Tendências projeta queda até 10,75%, com os cortes começando no último trimestre, e IPCA de 4,6% em 2008 (4%, segundo outra consultoria, a LCA). Melhor o BC não se precipitar. Não passa despercebido que os piores prognósticos quanto ao que virá pela frente sejam da área financeira. Pelo regime de metas de inflação, o BC “orienta suas decisões” conforme os valores futuros previstos para os preços, como se lê na ata de sua última reunião. As previsões são atualizadas semanalmente e publicadas no boletim Focus. O desta semana diz que as áreas econômicas de consultorias e bancos consultados estimam a variação do IPCA de 2008 em 4,29%, contra 4,3% na semana passada, e Selic a 11,13% (10,75% no Focus anterior) no fim do ano, contra atuais 11,25%. Tais cenários revelam indefinição, sobretudo quanto à evolução do câmbio, que tem agido como fator desinflacionário. No Focus, dá-se o fechamento do dólar este ano a R$ 1,80, o que tenderia a ser um nível neutro para o comportamento dos preços. O crescimento do PIB seria de 4,5%. Mas não se devem valorizar tais crendices. Nenhuma das feitas no início de 2007, indicando PIB e inflação menores que os realizados, se confirmaram. Chute por chute, que seja a favor, não contra, pelo menos até que se clareie o horizonte da economia. |
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