Antonio Machado
Bom momento do país embaça percepção de que parte do que o embala é a economia mundial

Ameaça à lua de mel da inflação baixa com crescimento elevado do PIB projeta-se para o fim do governo

02.07.2007 - 16:50

Antonio Machado

Está tudo muito bom, está tudo indo muito bem, e até o cuidadoso Banco Central não pôde mais se refrear ao reportar o comportamento da economia em seu relatório trimestral de inflação, projetando a sua variação este ano em 3,5% e refazendo para muito mais a aposta de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), que agora prevê em 4,7%. No relatório de março estimava 4,1%. Um belo salto.

À exceção de uma virada abrupta da economia internacional, o que não está à vista e o que poderá vir de ruim, como uma queda maior do ritmo de crescimento nos EUA, já foi de algum modo incorporado às expectativas dos mercados financeiros, o desempenho econômico de 2007 se delineou neste fim de primeiro semestre.

A maior ameaça à lua de mel da inflação estável com o crescimento elevado do PIB, embora ainda menor que a taxa prevista nos países emergentes, projeta-se para frente - um pouco em 2008 e mais sério para o final do segundo mandato do presidente Lula. A maravilha da retomada econômica embaça a percepção de que grande parte do que a embala vem da melhora dos preços dos produtos primários exportados pelo país, minérios e metais, sobretudo, e do aumento dos volumes embarcados de commodities agrícolas. China impeliu esse processo.

Esta graça, combinada com a desvalorização cambial entre 1999 e 2002 acompanhada do aumento de juros, recolocou o crescimento da economia dirigido pelas exportações - um movimento reforçado nesta administração devido à ação dura do BC contra a inflação, o que se de um lado manteve sonolenta a demanda interna de outro motivou os exportadores a imaginar a perenidade de uma política não pensada.

O fato é que dois governos (o segundo de FH e o primeiro de Lula) decididos a afastar do país as endemias das crises cambiais e dos surtos inflacionários - na verdade, estes como seqüelas daquelas - bastaram para criar uma situação inteiramente nova na economia. E isso sem quaisquer concessões à política, ao populismo social e a voluntarismos tolos tipo calote das dívidas.

Fecha-se o quadro do ajuste duríssimo, que desde o ano passado já permite a colheita dos primeiros frutos, com a constatação de que FH e Lula fizeram o que deles jamais se esperava. O governo taxado pela oposição de “neoliberal” patrocinou o maior aumento de carga tributária já visto no país. E o governo “popular e de esquerda” de Lula incorporou o espírito monetarista e percorreu o primeiro mandato inteiro com juros de levar banqueiro ao gozo.

Leniência e fraqueza

De comum aos dois governos foi a mistura de leniência e fraqueza frente ao tatibitate dos gastos públicos. Deixaram correr frouxo, empurrando com a barriga o que mais cedo ou mais tarde terá de ser enfrentado: o Estado gigante, divorciado do interesse público e causa da semi-estagnação do crescimento econômico.

O governo FH fez o ajuste fiscal à custa da expansão das receitas de impostos, não de redução das despesas, elevando a carga tributária de 24% do PIB para 35%. Fez isso para compensar os déficits orçamentários crescentes e para frear um pouco o aumento da dívida pública.

Samba tucano-petista

Ela subiu a quase 60% do PIB por força da Selic astronauta usada tanto para segurar a inflação despertada pela maxidesvalorização de 1999 como também para atrair capitais financeiros de fora a fim de ajudar a fechar os déficits das contas externas do país. E Lula nesta espécie de samba-enredo? Manteve a letra e trocou a música.

A situação ficou assim: câmbio e mercado interno fracos puseram a exportação nas alturas e tiraram as importações de cartaz, gerando superávits comerciais recordes, cujos dólares se adicionaram aos da especulação atraída por juros sem paralelo no mundo.

O processo foi e ainda é circular. O velho problema de escassez de divisas é agora de excesso. E criou um novo problema: a valorização do real.

O sucesso é efêmero

Quanto maior o superávit e reserva de divisas, que irá a US$ 175 bilhões no fim do ano (do tamanho da dívida externa total), melhor a percepção de solvência, menor o risco país e mais forte o real. Dólar barato reduz exportação, acentua importação, desvia produção para fora.

Ganha a inflação. E perde o emprego, se a ampliação da oferta - função de menos juros e impostos, que dependem de gastos públicos menores -, crescer mais lento que o consumo. Está aí a bola quadrada da economia: o Estado disfuncional, caro e pesadão.

A reversão do câmbio valorizado só deverá ocorrer lá para 2009, quando já deverá ter sumido o superávit das contas externas pelo aumento da importação, a transferência de produção exportável do Brasil para outros mercados (por se tornar gravosa aqui) e maior consumo interno, reduzindo o excedente de produção. Foi assim no primeiro mandato de Fernando Henrique. Um enorme desperdício.

Falta ao governo, para consolidar o ajuste da economia, reduzir a carga tributária ao nível mais perto de quando começou o processo, entre 1999 e 2002. É o que permitirá ao BC equalizar o overnight ao padrão externo e à banca, derrubar os juros, já que diminuirão as necessidades de giro da dívida pública.

Contar com a iminência do investment grade para baratear o custo do dinheiro é um risco, pois atrairá ainda mais o capital volátil que já inunda a liquidez interna, criando a ficção do real forte.

As opções são poucas. O apoio do BNDES ao investimento privado e público é básico. Mas o governo tem de chamar o jogo para si e se convencer de que sua inoperosidade é o maior óbice ao crescimento.


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