Antonio Machado
Moderar combate à inflação não é sinal adequado nem a meta de 4,5% é benção, como disse Lula

Para salvar aparências, definiu-se que a meta de 2009 é 4,5%, mas o BC poderá fazer 4%

28.06.2007 - 17:50

Antonio Machado

O estranho na discussão que antecedeu a decisão do CMN, Conselho Monetário Nacional, de estender para 2009 a mesma meta de inflação anual definida desde 2005, 4,5%, é que seus defensores se postaram no papel de advogados do interesse social. Por pressuposto, os que defendessem inflação menor seriam os bandidos, não os mocinhos.

Só faltava essa: a inflação como protagonista do bem, inversão de valores certamente copiada da política, onde caixa 2 virou recurso não-contabilizado, corrupção é a operação mal planejada, defensor da ética no Congresso seria um exibido e pedido de explicação para obscuras contabilidades pecuárias é repelido como extravagância - coisa de “esquadrão da morte moral”, “assassinato da honra”. Deus!

E pensar que em 1986, no Plano Cruzado, consumidores irados com a carestia saíram a fechar supermercados que burlavam o tabelamento de preços, investidos somente da autoridade simbólica de “fiscais do Sarney”. Políticos e governantes têm memória curta.

Nesse ambiente, linchado de véspera estava o Banco Central a quem restou a fantasia de vilão, “defensor de jogadas financeiras”, por ousar propor uma meta só um pouco menor, 4%, para dar coerência ao cenário corrente de desinflação, e não, segundo o deformado juízo dos críticos, para atrasar a queda da Selic e forçar a paridade do real com o dólar, premiando investidores externos à custa do país.

O câmbio se valoriza graças ao sucesso do ajuste da economia, que a tornou uma das mais seguras do mundo. Mas mentes transtornadas enxergam conspiração, vendo a mão do maligno na assimetria da taxa interbancária em relação aos juros de fora. O excesso de cautela, numa economia ditada por cartéis e com a liquidez pressionada pelo sistemático aumento dos gastos fiscais acima do PIB, é tomado como conluio com a banca - algo que avilta quem diz isso, não o BC.

O fato é que a inflação já roda abaixo da meta há bom tempo e nem assim está em linha com a carestia nas economias emergentes. A variação foi de 3,14% no ano passado. Prevê-se 3,6% este ano e 4% para qualquer ano depois de 2008. E por que não 3% ou 2%? Poderia ser, dependendo da sinalização que viesse para 2009. Veio mais, não menos inflação, que se choca com a alegada preocupação social. E sugere a crença de que mais inflação traz mais crescimento.

Dinheiro contadinho

A desinflação desde 2003 teve o efeito de multiplicar o poder de compra do dinheiro no bolso dos mais pobres, e há estudos segundo os quais esse fenômeno contribuiu mais para diminuir a pobreza que o incensado Bolsa Família. Lula já disse que deve a reeleição aos pobres, agradecidos pelo que ganharam sem a inflação.

Mas foi ele mesmo quem ditou os termos da decisão do CMN ao sustentar que não tinha o direito de fazer mais arrocho. Comparou a uma benção uma inflação de 4,5% repetida anos a fio, revelando-se cada vez mais distante de seu passado de sindicalista e dinheiro contadinho.

42% em dois mandatos

Rara é a categoria profissional que consegue repor pelo menos a inflação passada, quanto mais um ganho real. Inflação de 4,5% em quatro anos equivale a 19,2%. Tudo o mais sobe e o salário desce. A se crer em Lula, em dois mandatos a perda de renda seria de 42%.

A maioria dos trabalhadores está nesta situação, como indicam os acompanhamentos do Dieese, órgão de estudos dos sindicatos, e sem falar que o grosso nem sequer tem carteira assinada. Ganhos para essa gente só quando a inflação diminui ou se estabiliza.

Dúvidas hamletianas

O sujeito ausente dessa discussão é o câmbio. Até sindicalistas pedem desvalorização cambial, preocupados com a perda de empregos por causa das importações e a migração de fábricas para países com melhor relação competitiva. Atribui-se aos juros do BC culpa por uma situação na qual maior responsabilidade cabe aos impostos, ao custo da burocracia, aos ônus da logística inepta, à falta de uma política efetiva de comércio exterior. Por isso, tudo corre para o câmbio, o preço que ajusta a incompetência e incúria oficial.

No fim, para salvar as aparências, definiu-se que a meta de 2009 é 4,5%, mas o BC poderá calibrar a política monetária para fazer 4%. Ou é 4% ou 4,5%. Inflação não convive com dúvidas hamletianas.

Não é uma dádiva, mas uma doença recorrente, como a gripe, com a qual se convive se tratada, e mortal, se largada. A inflação está controlada, mas se continuar miúda, com vigilância implacável.

Riscos para frente

Dois riscos o governo tenta afastar ao sugerir que topa um pouco mais de inflação até 2009, 4% a 4,5%, contra o patamar atual de 3% e previsão de 3,6% em 2007: maior depreciação do dólar e uma Selic ainda avantajada. O câmbio pede medidas estruturais de fôlego como desoneração tributária, logística eficiente, de baixo custo, menos burocracia e linhas de crédito facilitadas, que o BNDE já oferece.

Os juros também se beneficiam dessas ações, se elas resultarem em aumento da capacidade instalada, sobretudo de energia. Sem energia a saída emergencial será um choque tarifário para refrear consumo, com óbvio impacto sobre a inflação e um novo patamar de custos.

A esta altura, o crescimento econômico acelerado com inflação sob controle depende mais da eficácia do governo como catalisador dos investimentos públicos e privados que de folga do BC, embora nada haja o que o impeça de diluir a Selic até 8% em meados de 2008.


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