![]() |
|
|
|
Receba a nossa Newsletter e faça parte da comunidade Cidade Biz. |
Antonio Machado |
Brasil lucra com Doha, mas jogou mal com a Índia e se dispõe a pagar pelo que pode ter de graça Por motivos fiscais, a UE adotou em 2003 um plano de dez anos para a redução dos subsídios à agricultura 26.06.2007 - 18:28 Antonio Machado Se a economia fosse parte inerente da diplomacia nas negociações frustradas, e, para muitos, de modo irreparável, no âmbito da OMC, a Organização Mundial do Comércio, visando o fim do protecionismo agrícola nos países ricos, compensado com a abertura dos mercados industriais e de serviços no mundo em desenvolvimento, é provável que o Brasil não tivesse ido com tanta sede ao pote. Teria economizado tempo, o que poria em debate outras opções para a ampliação do relacionamento comercial do país com o mundo, e não faria prosperar a ilusão no governo de que haveria grandes chances para o multilateralismo da Rodada de Doha. Foi na capital do Catar que começou, em 2001, cheio de esperança, o ciclo de reuniões para liberalizar o comércio entre os 150 países membros da OMC. Algumas simulações dos ganhos e perdas nesse processo, associado à compreensão da dinâmica da economia internacional, teriam levado a diplomacia brasileira a se orientar melhor entre interesses tão conflitantes. Também poderiam ter antecipado com razoável precisão o que se poderia esperar de concessões tanto dos EUA como da União Européia (UE) - os dois blocos econômicos sobre os quais o resto do mundo, representado por Brasil e Índia nas rodadas finais, pôs todas as expectativas de abertura dos mercados agrícolas. Na rodada derradeira, semana passada, na cidade alemã de Potsdam, os quatro estavam lá, mas Índia menos que Brasil suando a camisa para tentar harmonizar as pedidas. Nenhuma surpresa. Que a Rodada de Doha concluísse do jeito que as economias emergentes a haviam idealizado. Nem por isso a Índia teria motivos para soltar rojões. A China, a terceira potência comercial do mundo, depois dos EUA e da Alemanha, e caminhando para ser a primeira, então, foi em todos estes sete anos um poço de indiferença. E por quê? Estudos de fontes independentes, como o francês Centro de Estudos Políticos e Informações Internacionais (CEPII) e o Banco Mundial, indicaram que os países mais pobres, sobretudo da África, não só nada ganhavam com o fim do protecionismo no mundo rico como também perderiam o acesso preferencial à UE, uma concessão às ex-colônias dos europeus. Só isso bastaria para dinamitar a coesão na OMC, na qual as decisões têm de ser ratificadas por cada país, um a um. Nova velha geografia O bloco Índia-Brasil também nunca falou a mesma língua, apesar da retórica terceiro-mundista dos dois governos. Não poucas vezes, na Rodada de Doha, o Itamaraty sugeriu impressionar-se com os ecos da Guerra Fria, quando a Índia liderava o bloco dos não-alinhados. A tal da “nova geografia comercial” de Lula tem algo a ver com isso. A Índia se pautou por puro pragmatismo na Rodada de Doha e ao ver que ganharia pouco e até poderia perder, abrindo sua agricultura, foi mais um criador de caso que parceiro. Segundo o Banco Mundial, a redução geral das tarifas implicaria um ganho máximo de US$ 3,5 bilhões à Índia, com base em dados de 2000 a 2005, representando 24 dias de crescimento econômico para gerar este ganho – ou 18 dias, na simulação do CEPII. Menos de um mês. O mesmo exercício aplicado à China dava um resultado ainda mais miserável: um ganho de três dias. Riscos à agricultura Com comércio mais balanceado entre bens industriais e agrícolas, o Brasil, pelo estudo do Banco Mundial, poderia ter um acréscimo econômico de US$ 3,9 bilhões ao ano graças à maior liberalização tarifária, correspondendo a 82 dias de crescimento econômico. Nas contas do CEPII seria mesmo, 37 dias. Mas ambos devem ter superestimado a conta, já que o PIB foi revisto. Há outro dado pouco discutido: a queda do protecionismo seria geral, não só nos EUA e na UE. Vale dizer que a agricultura brasileira também estaria sujeita à concorrência de fora - e ela é eficiente no agronegócio, não necessariamente na agricultura familiar. Pagar pelo gratuito Outros fatores não ligados à dinâmica do comércio também puseram areia em Doha, segundo o professor Simon Evenett, da Universidade de Saint Gallen. Um veio em processo: a tendência de redução das tarifas em vários países por razões de eficiência econômica, não de comércio ou pela OMC. Outro é que, por motivos fiscais, a UE adotou em 2003 um plano de dez anos para a redução dos subsídios à agricultura. É. Sem concessões, se caminha para um comércio mais livre. E o governo Lula se dispôs a pagar pelo que virá de graça. Visões enviesadas sobre o comércio mundial impediram ao governo a sutileza - que não faltou a muitos países nem a analistas sérios, como Dani Rodrik, professor de economia internacional de Harvard - de perceber que o multilateralismo de Doha era um beco sem saída. Rodrik há tempos alertava para as “falsas expectativas” criadas em torno de Doha e o potencial de ganhos “vastamente exagerados”. Numa de suas análises, chamou de piada a idéia de que Doha seria uma “rodada pelo desenvolvimento”. Seu último artigo, cujo título tomamos emprestado, deixa claro que Doha beneficiaria, mesmo, os países ricos, não os pobres. Apologista de Doha, o economista Gary Hufbauer, ao contrário de Rodrik, prevê o apocalipse fora da OMC, e foi a ele que a mídia nativa deu ouvido. Faltou contar que ele tem um estudo segundo o qual a globalização permitiu aos EUA ficar US$ 1 trilhão por ano mais rico nos últimos 50 anos. Mas a tarifa média nos EUA é 2%, contra 13% no Brasil, e o protecionismo beneficia a agricultura, não o resto. A China foi por aí. Virou potência. E o Brasil? Quis dar aula de geografia... |
Antonio Machado |
| Parceiros |
![]() ![]() |
| Energia Mídia © Todos os direitos reservados |
últimas |