Antonio Machado
Indústria se queixa do câmbio. Em 2000 relutava em exportar. Só o fez sob a vara da recessão

O risco cambial ficou no passado, e o real virou pão quente, para infelicidade do exportador

31.05.2007 - 18:54

Antonio Machado

O anúncio de que um tradicional exportador de calçados, a gaúcha Reichert, decidiu fechar as portas, dispensando 4 mil empregados, e desativar vinte fábricas instaladas em onze municípios, pondo a culpa na valorização do real pelo seu fracasso, provoca calafrios.

O que assusta é a incerteza sobre se tal decisão é um ato isolado ou o início de uma onda. O provável neste caso mal explicado é que o gesto extremo seja um fato singular. O real forte é um óbice às exportações, especialmente para os setores que sofrem no exterior uma intensa concorrência, caso dos calçados e têxteis, que em toda parte estão se tornando mercado cativo de fabricantes chineses.

Mas, se o mercado externo vai se fechando para quem não consegue compensar a valorização cambial com aumento de preço, e é isso o que fizeram e fazem as mineradoras, as siderúrgicas, fabricantes de celulose, boa parte da cadeia do agronegócio - o que explica o superávit comercial continuar bombando -, resta como alternativa o consumo doméstico, que está em expansão. Se a Reichert desprezou essa saída, não é só o câmbio que explica a sua débâcle.

O mercado interno aquecido, em meio à estabilidade da economia, é a novidade notável em relação às crises cambiais do passado. Elas sempre vieram no bojo de déficits externos conjugados com fuga de capitais, exigindo recessões para gerar produção exportável.

Agora se vive o oposto: abundância de dólares, com risco país no menor nível histórico, reserva colossal de divisas, quase do mesmo tamanho da dívida externa, inflação comportada, mercado interno em alta, salário subindo, pobreza diminuindo, emprego crescendo.

Como falar em crise cambial diante de um cenário tão promissor? O câmbio, contudo, não expressa apenas uma relação de trocas físicas entre o mercado interno e externo. Ele também é condicionado pelos fluxos financeiros que entram e saem do país, atraídos pelos juros praticados pelo Banco Central. O seu debate, além disso, desperta paixões não vistas em nenhum outro indicador da economia.

Os governantes costumam referir-se em termos fortes ao câmbio e a um de seus maiores componentes, as exportações. Em meados de 2000, quando já passava de um ano a maxidesvalorização inaugural do novo regime do câmbio flutuante, lançado em janeiro de 1999, sem que as exportações dessem sinal de vitalidade, enquanto o país caminhava outra vez para a insolvência externa, o então presidente Fernando Henrique fez uma declaração grave: “Agora é exportar ou exportar”.

O Lula desavisado

Na campanha de 2002, em fevereiro, certamente por não entender o que se passava, o então candidato Lula também soltou uma metáfora candente. “Não vamos exportar à custa da fome do povo”, disse ele.

Devia estranhar o incentivo à exportação movida por recessão, mal sabendo que, depois de eleito, viria a se tornar o arauto do fim da vulnerabilidade externa do país. Mas em campanha não seria ele que daria apoio ao que fazia o governo FH para arrumar dólares.

Exportar era raro

Os juros nas alturas e medidas duras para arrochar o crédito se encarregaram de demover a relutância empresarial em exportar. É estranho, não? Sem dúvida. Quem assiste a Federação das Indústrias de São Paulo exigir do Banco Central mais câmbio e restrições à entrada de capitais financeiros de curto prazo, o hot money que aprecia o real, não deve acreditar que apenas sete anos atrás o governo jogava pesado para convencer o empresariado a exportar.

Foi pela recessão induzida, com seqüelas sobre o salário real, o emprego e o nível de estoques agigantado pelo encalhe da produção, que se reconstruiu a rota das exportações. A aversão ao risco dos capitais externos fez o resto: acentuou a desvalorização do real ao se recusar a financiar o rombo das contas correntes do país.

Tábua de salvação

O dólar caro porque escasso (e mais ficou em 2002, quando chegou a valer quase R$ 4, em outubro, devido ao temor do que Lula faria caso se elegesse) e o mercado interno estrangulado foram uma tábua de salvação para as empresas com produto e preço para exportar.

A aparição da China como devoradora de produtos básicos completou o serviço. E daí? O risco cambial ficou no passado, e o real virou pão quente, para infelicidade do exportador. Claro: jamais existiu uma política efetiva de comércio exterior. É a sua falta que faz o exportador, alguns, não todos, depender tanto da taxa cambial.

A compreensão da folha corrida das exportações é fundamental para que se avalie o problema cambial do dólar a R$ 1,92. Um pouco mais acima disso deve ser o câmbio de longo prazo, mantidas a condição de solvência do país e de estabilidade monetária e fiscal. Mas o desempenho exportador não dependeu sempre de câmbio desvalorizado?

É verdade, mas isso quando a economia não gerava cambiais sequer para solver a dívida externa, quando mais para deixar um superávit nas contas correntes. Os cenários são diferentes. E se torce para que o atual seja duradouro e só melhore.

O que ainda está fora de sintonia é o juro interbancário e sua influência sobre a emissão de parte dos papéis de dívida do Tesouro. Como é recorde no mundo, atrai hot money a vir para o país para ganhar com a arbitragem de taxas, o que também induz o empresariado a fazer uma receita extra pela “financeirização” das exportações e importações.

Essa distorção agrava a apreciação do real e deve ser eliminada. Mas o real continuará mais valorizado do que deseja o exportador. Aí não tem jeito. Atendê-lo exigiria transferir renda de salário.


versão para impressão envie a um amigo


  Antonio Machado


Parceiros
Energia Mídia © Todos os direitos reservados