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Antonio Machado |
BC deve elevar corte da Selic, que virá para 12%, e defende meta de inflação menor para 2009 Não é muito para animar o empresariado. Mas, como diz Meirelles, prudência garante que não haverá retrocesso 30.05.2007 - 17:02 Antonio Machado Por mais que privilegie a previsibilidade de suas ações, no curto prazo nada é mais imprevisível que as decisões do Banco Central em relação ao juro interbancário, vulgo Selic, e a taxa cambial. O BC é cioso de sua autonomia informal, o que o leva a contrariar o que seria razoável sempre que sua diretoria se sente pressionada. Ocorre que a inflação está comportada até demais, dado o contínuo aquecimento da demanda, o que noutros tempos provocaria calafrios, se não entre toda a diretoria de sete membros do BC, presidida por Henrique Meirelles, pelo menos junto a alguns deles. Alguém poderá questionar que os diretores mais friorentos se demitiram. Desde o recuo, na primeira reunião do ano, em janeiro, do padrão de corte da Selic de 0,5 ponto de percentagem para 0,25, a foto da diretoria mudou duas vezes. Mas também mudaram vários indicadores, como o da taxa de investimentos. Segundo Meirelles, seu ritmo já é maior que o do consumo, o que significa que a capacidade potencial de produção está se alargando. Já na última reunião três diretores viram nesse cenário espaço para cortar meio ponto a Selic. Essa constatação se acumula com a “descoberta” pelo IBGE revelada no fim de março de que a medição do Produto Interno Bruto do país estava subestimada pela apuração imperfeita do setor de serviços. O PIB era maior do que se supunha, permitindo em tese acomodar uma taxa maior de crescimento econômico. E, se faltasse produção para tanta demanda, está aí a retomada das importações, graças por sua vez a outro antídoto contra pressões inflacionárias, a apreciação do real, para compensar qualquer desequilíbrio de oferta. A leitura cifrada da conjuntura indica que só com malabarismos o BC deixará de sancionar a queda da Selic de 12,5% ao ano para 12%, marcando a volta do corte de 0,5 ponto na reunião do dia 6. Ainda será muito. Deflacionada pela inflação de doze meses, a Selic real será de 8,7%. E pela estimativa de doze meses à frente, 8,2%. Como o modelo de previsão inflacionária embute, ao que se supõe, uma gordura de 2 pontos de percentagem - espécie de margem contra imprevistos -, que o overnight estivesse em 10%, o que daria um rendimento real ainda alto de 6,3%, e tudo estaria sob controle. O provável, pela leitura das percepções de mercado e depoimentos do presidente do BC, é que a Selic feche o ano nesta faixa, 10% a 10,5%, o que implica replicar nas últimas quatro reuniões do Copom mais dois cortes de 0,5 ponto de percentagem e dois de 0,25. Evitando retrocesso Não é muito para animar o empresariado que já vestiu a camisa do crescimento acelerado da economia. Mas, como Meirelles pondera, a prudência do BC não frustra o entusiasmo. Ao contrário, é ela que garante a certeza de que não haverá retrocesso logo mais à frente. Em conversa semana passada com empresários em São Paulo, falou em paciência como a arte da boa macroeconomia. Um economista ilustrou o conselho de Meirelles com um gráfico da consultoria Tendências, que impressionou. Desde 2002, estão perfeitamente alinhadas, quase como traços gêmeos, a evolução da inflação realizada e da Selic. O futuro no presente “Essa é a demonstração de que a política monetária funciona e que o BC sempre soube o que estava fazendo”, reagiu Meirelles. Também sustentou que o aumento dos investimentos em bens de capital, o que antecipa a ampliação da produção nacional, vem da estabilidade trazida pela inflação. Já é possível prever as taxas de retorno de investimentos em prazos longos. A média da inflação prevista para 2010 é de 4%, bem como para 2009, abaixo, portanto, da meta atual de 4,5%, que ficou para trás em 2006 (deu 3,1%) e ficará este ano. A inflação e o PIB A trajetória mirrada da inflação incentiva o BC a rever para 2009 a meta de 4,5%, que vale até 2008, para 4%. A decisão pertence ao Conselho Monetário Nacional, formado pelo presidente do BC e os ministros da Fazenda e do Planejamento, e será anunciada agora em junho. A palavra final será do presidente Lula. Há muitas dúvidas. Para testar as reações, circula como idéia a meta de 4%, com piso de 2,5% e teto de 5,5% (2 pontos de margem contra os 2,5 atuais). Parece longe, 2009, mas não é. O BC já começa a induzir a inflação de 2008, cuja estimativa média está em 3,91%. É a meta que define a estatura da Selic. Por tal proposta, sua queda continuará lenta. Mas no BC não se prevê crescimento pífio do PIB por conta disso. Há cenários com base no modelo de projeções do BC pelos quais a Selic em 12% este ano já asseguraria crescimento econômico de 5%. Se a macroeconomia conseguir sustentar esta taxa anos seguidos, o risco não seria a recidiva da inflação, supondo-se que permaneça equilibrada a expansão da oferta e da demanda, mais a absorção de importações. O perigo está na derrapada das exportações, o que o real valorizado ainda não conseguiu e parece depender mais do que será da economia internacional que da taxa cambial. Também não é desprezível a ameaça de falta de energia no final da década. O dólar a R$ 1,94 por ora saiu dos holofotes, mas segue o debate entre quatro paredes no governo. Discute-se a influência dos juros vis-à-vis os ainda elevados superávits comerciais e os ingressos de investimentos externos diretos. O BC defende que a arbitragem é o que menos aprecia o real. A Fazenda tende a pensar o oposto. Mas como o superávit continua vigoroso a discussão parece ociosa. Se nada de mais grave acontecer, Lula continuará dando ouvidos a todas as opiniões, o que só o ilustra, mas seguirá escorando o BC. |
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