Antonio Machado
Dilemas cambiais: PIB deve ter virado trimestre a 5,7%; custo das reservas faz três Bolsa Família

Situação econômica pede mais que medidas isoladas, que são escapismos. O caso do câmbio é sintomático

21.05.2007 - 18:50

Antonio Machado

A questão do real valorizado, tratada como polêmica e entendida por muitos como um alvará para malhar o Banco Central, deveria ser encarada como a grande oportunidade para se discutir o que nunca houve, de fato, no país: uma política para o comércio exterior.

O que há é fraco: desonerações fiscais são parciais, algumas são quase engodo, como os créditos do ICMS, que os estados se recusam a compensar, as linhas de financiamento de exportação, incluindo de pré-produção, são comuns e até já perderam nos bancos estatais o incentivo de custo, pois se encontram mais em conta no exterior.

O resultado é que, no fim do dia, o modelo do crescimento movido a exportação se resume a câmbio desvalorizado para quem acreditou nessa diretriz governamental lançada por Fernando Henrique em 2000 e reafirmada por Lula. As empresas vacinadas contra as parolagens oficiais se aproveitaram da facilidade cambial enquanto existiu, mas trataram de se cuidar: modernizaram suas plantas, aumentaram a eficiência em logística e abriram instalações no exterior.

Qualquer negócio pendurado num único estímulo está limitado a ser provisório, como agora se verifica com o câmbio de R$ 1,95, mas já era assim a R$ 2,20, contra um arcabouço de políticas e estruturas que jogam contra a exportação, como carga tributária, juros, falta de logística decente, gargalos nos portos e aeroportos, burocracia infernal, legislação trabalhista rígida, energia cara e incerta.

Veja a diferença com a China. Lá o yuan é mantido artificialmente baixo. E, ainda assim, ao anunciar esta semana mais quatro setores prioritários, como pesquisas de desenvolvimento de produto, infra-estrutura e serviços industriais, o vice-primeiro ministro Zhang Xiaqiang ofereceu “preferência diplomática, facilidades externas, tributárias e tarifárias e políticas de seguro e de crédito”.

Isso é política industrial e de comércio exterior. Aqui, nem as obras do PAC desfrutam leque tão amplo de incentivos.

O câmbio deveria ser o preço do ajuste para o exportador. Mas há muitas coisas que o antecedem, como a sintonia entre as políticas monetária e fiscal, que mal se falam, quando não são conflitantes. Paga-se agora o preço do sucesso imperfeito. Como diz o economista José Roberto Mendonça de Barros, as “fragilidades da economia” são expostas pelo câmbio valorizado. Mudar isso só com o tempo.

Crescimento de 4,9%

Do Banco Central não se deve esperar muito mais tanto em termos de acumulação de reservas como de redução acentuada da Selic. O racional, à luz dos riscos inflacionários perceptíveis, seria pôr abaixo o overnight. Mas precisamente agora começa a se manifestar na economia o efeito da longa queda da Selic, que vem de setembro de 2005 quando estava a 19,75%, e mais as facilidades de crédito.

No próximo dia 31, o IBGE divulgará a primeira prévia da evolução do PIB no primeiro trimestre. Nas simulações do analista Fernando Montero, que conhece macroeconomia como poucos, o crescimento deve ter sido de 1,4% em relação ao último trimestre de 2006, o que dá uma taxa anualizada de quebrar o queixo: 5,7%.

Em base anual, sua previsão é de que o PIB tenha crescido 4,9%, contra 3,4% em 2006. E logo no começo do ano, o período mais fraco da economia.

O consumo disparou

A economia, nas contas de Montero, está bombando e para 2007 já sinaliza um crescimento de 4,5%. Nessa toada chegará a 5%, uma das previsões cuspidas pelo modelo econométrico do BC com a Selic em 12% e dólar a R$ 2.

A demanda de bens comercializáveis cresceu 14% no 1º trimestre, com 11,8% para o varejo e 19% para investimentos em máquinas. Já a produção de comercializáveis cresceu 4,4%, entre 3,8% na indústria e 7% na agropecuária. O resto da oferta, o tal “vazamento” de que falam os economistas, veio de importações.

Tudo combinado, a oferta final deve ter crescido 12% no trimestre e a demanda, 14%. Obviamente, são estimativas, mas próximas dos fatos.

Reservas custam caro

Economia aquecida provoca arrepios no BC, mas há o dilema sobre como tratar o câmbio. Se parece difícil pela redução da Selic, pela compra de reservas é mais problemático. Estão em US$ 122 bilhões e pelo padrão de compras este ano, segundo Ítalo Lombardi, analista de Nova York, fecharão o ano em US$ 180 bilhões. Cada dólar a mais comprado implica um prejuízo de US$ 0,07.

Ao fim do ano o total de reservas custaria não menos que US$ 12 bilhões, equivalentes a 26% do superávit primário e quase o triplo do Bolsa Família que atende 11 milhões de famílias. Segurar o câmbio custa caro...

A situação da economia já pede mais que medidas isoladas, que não passam de escapismos. O caso do câmbio é sintomático. A apreciação do real coincide com o mercado interno aquecido. É certo que, para frente, só com dólar muito desvalorizado boa parte das indústrias continuará a exportar. Para a maioria, vender no país rende mais.

A produção ao nível de pleno emprego, além disso, não dá para os dois mercados, afora setores como o mineral e o agronegócio.

Sem uma política de longo prazo de comércio exterior conectado a investimentos maciços em novas fábricas não se terá na exportação um fator permanente para o crescimento econômico, pois disputará produção com o consumo doméstico.

É preciso também rever juízos, como criminalizar as importações. Ruim é a exportação encolher e a importação se expandir. Superávits comerciais volumosos perderam importância com o custeio da dívida externa equacionado. Essa é a discussão a ser feita, embora poucos se dêem conta disso.


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