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Cúpula Brasil-EUA não deve ir além da definição de regras e cooperação para o mercado de etanol Especialista afirma que deve partir de Bush proposta para o acesso do álcool brasileiro ao mercado dos EUA 05.03.2007 - 20:12 Nunca antes se viu presidentes do Brasil e dos Estados Unidos se encontrarem duas vezes em um único mês. Apesar da indicação de estreitamento das relações entre os dois países, ligados fortemente neste momento por serem os maiores produtores e consumidores de etanol do globo, não se deve esperar mais das reuniões que o estabelecimento de regras para o funcionamento do novo mercado, segundo o economista Marcos Jank, presidente do Ícone, Instituto do Comércio e Negociações Internacionais. “O presidente Bush deverá propor ao Brasil uma cooperação na área tecnológica, padrões e investimentos em terceiros mercados e bilaterais”, diz Jank. Para ele, temas mais complicados, como acesso a mercados, ficarão de fora da agenda. Acompanhe a seguir a entrevista, após Jank participar na sexta-feira do comitê estratégico de Economia da Amcham - São Paulo. Amcham: Neste mês, os presidentes Lula e Bush vão encontrar-se e devem tratar de um acordo de cooperação em biocombustíveis. O que esperar de resultado concreto desses encontros? Marcos Jank: É uma oportunidade rara e histórica. Rara porque não me lembro de presidentes do Brasil e dos EUA se encontrarem duas vezes em um mês, o que mostra que existe realmente uma vontade de retomar as relações. E histórica porque não há hoje nenhuma cooperação na área de biocombustíveis. A cooperação é fundamental para reduzir os custos de transação, para pavimentar as regras que farão com que esse mercado surja. Não só o próprio mercado, mas a produção e o consumo. Brasil e EUA representam 72% da produção mundial, são os dois maiores players, aqueles que têm programas se expandindo mais rapidamente. Pelo que sabemos, a cooperação se dará desde já, nessa visita. O presidente Bush deverá propor ao Brasil uma cooperação na área tecnológica, na área de padrões – significa definir a commodity etanol, a commodity biodiesel –, e na área de investimentos em terceiros mercados e bilaterais. O Sr. se refere aos países do continente (Peru, Colômbia, El Salvador, Honduras, Guatemala, São Cristóvão e Névis, República Dominicana e Haiti) que acabam de ser apontados pelo governo Bush como estratégicos para a cooperação em etanol? Jank: Isso mesmo. Acho que essa agenda de investimentos em terceiros países é politicamente importante, mas, se olharmos o lado econômico, faria mais sentido investir por exemplo no Brasil, que já tem área plantada e produção. A agenda de padrões e tecnologia é fundamental. Temos que avançar em tecnologias que aumentem a produtividade das diversas plantas envolvidas. Por que a tecnologia existente hoje no Brasil, apesar de ser considerada modelo, não vai ser suficiente para atender toda a necessidade futura? Jank: Sabemos que, se houvesse variedades biotecnológicas de cana, ou se tivéssemos a possibilidade de produzir (etanol) a partir de bagaço, além do suco, isso poderia aumentar a produtividade de 50% a até 100%. É um paradigma muito interessante que vem pela frente. Há um breakthrough (ponto de ruptura) que pode ocorrer nos próximos dez anos de novas tecnologias. O que é espinhoso, que não faz parte dessa agenda bilateral, é o tema de acesso a mercados. Curiosamente, enquanto o mercado de combustíveis fósseis, do qual todos querem livrar-se para depender menos, é totalmente liberalizado, o mercado de combustíveis renováveis é absolutamente protegido no mundo. É uma ironia. O certo seria, para sair do fóssil, protegê-lo e liberar o renovável. Isso não está ocorrendo por que a maioria dos países tem programas de consumo ligados à alta produção, ou seja, os países querem consumir renováveis, mas desejam que isso seja feito pelos seus agricultores. Há muitas proteções de fronteira e esse tema é espinhoso em todos os países que são potenciais importadores. Então, não estará presente no documento que será assinado (pelos presidentes). Há um movimento do senador republicano Richard Lugar para propor uma lei que estimule o mercado de etanol no continente por meio de medidas como redução da tarifa de importação de etanol, hoje de US$ 0,54 por galão (3,78 litros). Jank: Sim, houve o vazamento de um projeto de lei que deve sair nos EUA, mas que até agora nem existe. Não se sabe o nível de apoio que terá. Acho que no Senado americano, como no próprio Congresso, certamente haverá um grupo de interessados em liberalização. Mais do que isso, acho que interessa aos EUA uma liberalização, uma possibilidade de poder comprar parte do etanol que quer consumir. Os EUA ao que parece não teriam como cumprir a meta proposta pelo presidente Bush de multiplicar a produção por sete vezes até 2017 sem ampliarem a importação. Jank: O que aprendemos olhando os números é que hoje tanto Brasil como EUA produzem em torno de 17 bilhões de litro. O Brasil, até 2012, vai para 35 bilhões de litros e os americanos, para 50 bilhões. Portanto, vão aumentar bastante. Mas o plano do presidente Bush, anunciado no discurso do State of the Union, seria chegar a 130 bilhões. Para os americanos saltarem de 50 para 130 só há duas possibilidades: ou importam mais ou desenvolvem etanol de outras fontes que não o milho, o que depende de pesquisas. Não há nenhuma planta comercial ainda, por exemplo, de etanol de celulose. O caminho mais inteligente seria pensar em mecanismos de política. Não seria preciso abrir o mercado americano, mas se poderia, por exemplo, permitir a entrada de um certo volume de etanol que ajudasse a regular os preços nos Estados Unidos. Como um sistema de cotas? Jank: Há várias alternativas que estamos estudando há algum tempo, mas o importante é que os americanos deveriam se conscientizar disso e nos fazer uma proposta. Sempre estaremos abertos a discutir esse assunto, mas percebi que em Washington ainda há certa resistência a colocar esse tema sobre a mesa. Isso é natural porque é a primeira vez que se assina um acordo (como esse). Ele deverá levar a novas reuniões e novos estudos que permitam introduzirmos em algum momento o tema do acesso a mercados. Se os americanos adotarem uma postura mais aberta, o Brasil terá condições de produção e logística para suprir essa demanda? Jank: Acho que temos condição. Não hoje, certamente, porque ninguém ainda olha a exportação como algo concreto. Há uma expectativa, mas não uma realidade. Esse setor cresceu primeiro apoiado por subsídios, depois com a expansão do mercado mundial de açúcar, depois com veículos flex, e talvez nos próximos dez anos o driver de crescimento seja a exportação. Se for, o Brasil tem área, condição e tecnologia para isso, e pode ter infra-estrutura se fizer os investimentos corretos. Mas tem que existir demanda clara dos países que serão os grandes consumidores. Os EUA serão um grande consumidor, mas também a China, a Índia, e até a União Européia, em menor escala. Então a questão de acesso a mercados é fundamental. O que falta para a criação de um mercado mundial de etanol sustentável, além desses padrões e de investimentos em tecnologia? Jank: Para criar um mercado sustentável, seria preciso ter uma série de pré-requisitos que vão de estudos, pesquisas, padrões e investimentos a infra-estrutura e acesso a mercados. É preciso cobrir tudo. Quando se fala em tecnologia, significa tanto tecnologia agrícola como tecnologia industrial. Tanto se tem a questão das variedades de cana, milho ou etanol de celulose, como toda a questão de hidrólise, gaseificação e métodos industriais que podem ser utilizados para converter biomassa em etanol. Existe um leque de cooperação extraordinário que vai ser iniciado nessa visita, mas pode ser ampliado nos próximos meses. Já se detecta nos EUA aumento no preço do milho, impulsionado pela maior procura em razão de seu uso na produção de biocombustível. Qual a tendência para os preços mundiais de commodities diante desse cenário? Jank: A leitura que faço é que realmente os impactos do crescimento do etanol nos mercados agrícolas é grande, principalmente nos EUA. Isso gerou o aumento do milho. Temos que tomar cuidado porque é uma commodity muito estratégica, que afeta suínos, aves e bovinos de corte e de leite. Nos EUA, até o açúcar é feito de milho. É uma situação calamitosa. Percebi em Washington que já há hoje um lobby grande dos setores agrícolas afetados negativamente contra o subsídio que os EUA dão para produzir etanol. Isso é muito sensível. No óleo de palma, percebemos a mesma coisa com o aumento de seu uso para fazer biodiesel. O milho também vai afetar a soja. Há muitos efeitos cruzados que precisam ser mais bem analisados. Esse acordo em biocombustíveis pode abrir a oportunidade de o Brasil estabelecer um mais amplo com os EUA? Jank: Em biocombustíveis, sim. Mas na linha comercial, acho que não. Ouvi analistas dizendo que nessa reunião começariam a resolver problemas de Doha (rodada de liberalização comercial no âmbito da Organização Mundial de Comércio) e Alca (Área de Livre Comércio das Américas). Isso não existe. Todo encontro é positivo, mas não vejo nessa reunião específica o tema da solução para Doha, ou do avanço da Alca, ou de um arranjo bilateral. Sob a ótica de política comercial não se deve esperar grande coisa desse encontro, a não ser palavras de otimismo em relação a Doha. Não acho que (os presidentes) entrarão na substância dos problemas. ₢ Amcham News |
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