Antonio Machado
“A economia é o fato que, com o qual ou sem o qual, o Brasil seria tal e qual”

Voltamos onde estávamos quando a China saiu atrás da “velha geografia”: dependente de commodities

05.02.2007 - 18:00

Antonio Machado

A batalha pela direção da Câmara entre dois lados da mesma face governista, o grupo do “Sim!” e o do “Sim, Senhor!”, o vencedor, como os definiu com sua verve habitual o jornalista e consultor Carlos Brickmann, pareceu um acontecimento de importância capital pela atenção que tomou do governo e da mídia. Um evento tão grave que, parafraseando o escritor italiano Dino Segres, que escrevia obras sarcásticas sob o pseudônimo Pittigrilli, Brickmann elucidou com picardia: “A eleição na Câmara é o fato que, com o qual ou sem o qual, o Brasil seria tal e qual”.

Com uma pequena troca, lendo-se “o programa econômico do governo” onde se escreveu “a eleição na Câmara”, poderia se dizer o mesmo sobre os recentes esforços, melhor dizendo, tentativas para fazer pegar no tranco a aceleração da economia e fazê-la crescer não à média de 2,7% ao ano do primeiro mandato de Lula nem a 2,6%, como foi nos últimos doze anos, nem muito menos a 3,5% a 4%, conforme a previsão para 2007 a 2010. Mas a 5%, sonho que Lula já esqueceu.

Isso, enquanto a China ferve a 10% todos os anos há mais de uma década, a Argentina vai acima de 8% há três anos e os financistas começam a esquecer que logo ali, em 2001, ela fora à lona com sua dívida, dando um beiço de US$ 100 bilhões. E o mundo cresce batido mais de 5%. Todos crescem animados. Menos nós. É um enigma. Fora isso, que deve ser questão de somenos, estamos bem em tudo mais.

A inflação é baixinha, de primeiro mundo, apesar dos juros reais, que esta semana voltaram a bater os da Turquia assumindo o topo do ranking mundial da agiotagem. O risco país no nível de 188 pontos, o menor já visto aqui, atrai levas de dinheiro vagabundo do mundo, que fazem a festa da bolsa e arruínam o câmbio para o exportador. A miséria é cadente, mas não porque cresceram forte o emprego e a educação, mas porque aumentou o assistencialismo.

E assim vamos, diferente dos demais, protegendo fauna e a flora, que a China, virtual segunda maior economia do mundo, destruiu em menos de três décadas, quando tudo começou para eles. Nosso PIB era maior que o deles, e exportavam pó de marfim, um ancestral do Viagra, sombrinhas, chá verde e imitações eletrônicas baratas.

Chineses malvados

Hoje a China assalta nossos mercados até entre os vizinhos do Mercosul. Malvados esses “chinas”. Mas graças ao que se tornou a máquina de bens de consumo do mundo a preços sem igual continuamos quebrando recordes de exportação, apesar do real valorizado, que só não veio abaixo de R$ 2,10 semana passada porque o Banco Central raspou os dólares da praça.

Voltamos onde estávamos quando a China saiu em busca da “velha geografia”: dependentes da exportação de minérios, semi-manufaturados e produtos agrícolas, matérias-primas tragadas pela máquina industrial chinesa. Andamos para trás.

Pequena gravidez

Fazer o que, se há ameaças, como nos alerta a ata da diretoria do BC, que explica por que o ritmo de queda da Selic teve de cair de 0,5 ponto de percentagem para 0,25, estando agora em 13%? Estes guardiões do poder aquisitivo da moeda devem ter sido leitores do italiano Pittigrilli.

Muitos anos atrás ele já ensinava o que o BC aplica agora com rigidez: “Uma pequena inflação não tem a mínima conseqüência. É exatamente como uma pequena gravidez”.

Conversa de doido

A compreensão dos desígnios do BC, porém, não é para qualquer um. Um dos economistas especialistas em atas explicou as razões do BC: “De acordo com o texto, a ata da última reunião do Copom ressalta que o cenário inflacionário é benigno, as pressões são pontuais, a atividade vem se comportando dentro do esperado e a maior demanda vem sendo atendida com o crescimento das importações”. Viu?

Uau! Então, se o céu é de brigadeiro, por que se reduziu o corte da Selic? A dúvida revela o amador. Mas o economista está à mão, solícito, e decifra tudo: “A redução do ritmo de cortes se deve às incertezas com relação aos mecanismos de transmissão da política monetária e à menor distância entre a taxa de juros corrente e a que deve vigorar em equilíbrio no médio prazo”. Entenderam? Está “dentro do esperado”, mas há “incertezas”. É conversa de doido.

Nós fazemos a exegese de atas cifradas. Argentina, China, Índia, Uruguai, todo mundo, só quer produzir, vender, empregar, fazer, ficar rico. Eles estão errados. Afinal, não lemos “O Alienista”.

O que esperar de um país que maltrata o seu empreendedor, que só agora, mais de dez anos depois de muita reivindicação, conseguiu umas facilidades, mas seletivas, com o estatuto da micro e pequena empresa? Que dá um cisco de redução tributária, mas só após julho, pois agora não há dinheiro para a bondade.

A mesma bondade que burocratas usaram esta semana para mostrar que o déficit da Previdência está inchado e, por dedução, não há o que cortar. Como se todo problema previdenciário fosse de equilíbrio contábil, não de denunciar as liberalidades do sistema, sobretudo para o funcionalismo, a fim de questioná-las.

A discussão era para o governo voltar a contar com recursos para investir sem ter aumentar a carga tributária a cada ano. Virou conversa de guarda-livros, e pau no desenvolvimento.

Defender o crescimento econômico sem sofisma está se tornando uma atividade de risco, coisa de gente ruim – neoliberal, só pode ser.


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