Receba a nossa Newsletter
e faça parte da comunidade
Cidade Biz.






Google
Web

    Cidade Biz


  Antonio Machado
Eleitor vai votar em candidatos hábeis em iludir e misteriosos sobre o que farão, eleja-se quem for

Se o cidadão soubesse da missa a metade talvez fosse mais compreensivo sobre as limitações dos governos

29.09.2006 - 21:48

Antonio Machado

Com o debate entre os presidenciáveis na quinta à noite se fechou uma campanha presidencial em que o mais palpitante que se ouviu do candidato desafiante em relação à decisiva questão do crescimento da economia é “trabalhar, trabalhar, com planejamento e gestão”, e do presidente que pede bis, nada além dos auto-elogios ao que diz que fez - quase tudo, segundo ele, “nunca antes feito neste país”.

Assim estamos, e se ainda não deu Lula lá é porque a truculência de seus amigos sindicalistas criou uma esperança de tira-teima no segundo turno que os tucanos de Geraldo Alckmin, a rigor, suaram muito pouco para merecê-lo. Não fosse o escândalo do dossiê fajuto armado pela delinqüência petista contra José Serra - virtualmente eleito governador de São Paulo meio como compensação à puxada de tapete que Alckmin e cardeais do PSDB lhe aplicaram quando estava bem cotado pelo eleitor para tentar ir à forra contra Lula -, e a eleição de 2006 acabaria como começou: insípida e inodora, assim como o chuchu, ironicamente, o apelido pespegado em Alckmin.

Como dos Ibope, Datafolha e Vox Populi pode-se esperar impressões mas nunca certezas, só domingo à noite se saberá se será para já ou para 29 de outubro o anúncio de quem nos governará até 2010. O que está absolutamente certo é que o eleito tomará posse envolto em denso mistério sobre o que fará nos próximos quatro anos.

Quer exemplos? Que tal esse? Segundo a consultoria McKinsey, uma das maiores barreiras ao crescimento econômico graúdo do país é o gigantesco tamanho da economia informal, da ordem de 40% do PIB. Muitas empresas sonegam os impostos, ignoram os regulamentos de segurança e qualidade e infringem direitos autorais, tomando o mercado dos honestos e mais eficientes.

Qual a solução de Lula e Alckmin para combater estas fraudes, que não são monopólio de camelôs? Ao contrário, nelas têm de tudo: de multinacionais a respeitáveis logotipos da indústria nacional. Não sabe? Nem eu.

“Mas isto é fácil resolver”, alguém pode alegar. “Basta reduzir impostos para o preço cair e o lucro do pirata deixar de compensar o risco da ilegalidade.” Brilhante! E sem ironia. É mesmo o que há para fazer. Então, vá a Brasília, no Congresso, e comece a cobrar os parlamentares: toda semana, há meia dúzia de novas proposituras para criar despesas públicas. Dizer o que cortar sobre o que já se gasta para encaixar a nova despesa ninguém se dá ao trabalho.

Só bilhão e trilhão

E olhe que o Estado, do presidente aos prefeitos, já gasta 42% do PIB, aí por baixo (coisa de R$ 850 bilhões), cobra de todo nós 38% de impostos (R$ 769 bilhões), o que deixa um vermelho no orçamento de 4% (R$ 81 bilhões), que a cada ano vai inchar a dívida pública de 50% do PIB, arredondando (R$ 1 trilhão. Trilhão, eu disse). Mas já foi maior. Bruta, ou seja, excluindo o que os estados devem ao governo federal – e não faltou candidato a governador prometendo ir a Brasília, se eleito, pedir um beiço – é brutal: vai a 72% do PIB, R$ 1,458 trilhão.

É sobre essa dívida que incidem os juros do Banco Central, de 14,25% ao ano, atualmente. Ela custa ao país a bagatela de 8% do PIB, R$ 162 bilhões. Quando foi mesmo que Lula ou Alckmin discutiu tais números com você? Hem? Não ouvi...

Dinheiro mal gasto

Se o Tesouro pagar muito menos que os juros reais do BC, digamos, 8% ao ano, para rolar esse Everest de dívidas, pode ficar falando sozinho. O credor topa aceitar menos. Desde que veja o devedor em situação de força, o que implica agir como uma empresa saneada e em crescimento: endivida-se não para pagar os excessos de gastos correntes (em salários, instalações suntuosas) ou dívidas antigas, mas para crescer com mais força.

Ao governo falta esta situação. Toma dinheiro bom para bancar gasto ruim que não volta sob a forma de mais empregos e serviços públicos padrão nota 10. Discutiu-se isso na campanha eleitoral? Nem nos planos (de ficção) de governo.

Ocultando coisa ruim

Pegue-se o déficit da Previdência: está estimado em R$ 41 bilhões e deve ser maior. De onde vem a maior parte do dinheiro que paga o rombo? Da verba que o orçamento federal destina para a assistência social e a saúde, como manda a Constituição, que também diz que os benefícios previdenciários são pagos apenas pelas contribuições de segurados. Quimera. É o mais grave problema fiscal do país. Qual candidato se referiu a ele? É isso que faz da eleição uma loteria.

Se o cidadão soubesse da missa a metade é provável que fosse mais compreensivo sobre as limitações dos governos. Quer receber mais do Estado? Então, pagará mais impostos. Assim é a vida, que o político, porém, só faz ocultar, como se quisesse poupar o coitado do eleitor de coisas ruins.

Tanto nos pouparam que acabaram com a poupança popular, seja a do orçamento de receitas e despesas dos governos, seja a que fazemos. Afinal, sobra o que, depois de pagar 67% de carga tributária na conta da luz, mais de 30% no carro zero (7% nos EUA), mais de 20% nos remédios, 15% a 30% nos alimentos?

É o preço que a sociedade paga pelo que recebe na rede do SUS, as aposentadorias, o milagre do Bolsa Família - e também pela miríade de 27 governos estaduais, mais o federal, cada qual com a justiça, polícia e penduricalhos próprios. E tem mais de 5600 municípios, cada um com sua câmara de vereadores, assessores, aspones.

Onde é que vai dar tudo isso? Em estradas esburacadas, apagão de energia, doentes empilhados em corredores de hospitais, violência das ruas. Olhe que também tem vampiros, sanguessugas, mensaleiros. Capite?


versão para impressão
envie a um amigo

  Antonio Machado


Parceiros
Energia Mídia © Todos os direitos reservados


  últimas