Lula parece decidido, se reeleito, a se livrar dos vendilhões petistas e cobrar limpeza na política
Partido sempre sub judice e tocado por figuras opacas fichadas pela polícia virou um constrangimento
27.09.2006 - 20:03
Antonio Machado
Neste Brasil de pernas para o ar, há certezas, dúvidas e mitos. É certo que o presidente Lula pode até ter desconhecido o varejo das malfeitorias dos petistas em seu governo, mas é altamente duvidoso de que não soubesse o atacado, como o aliciamento de deputados com o recurso eternizado como mensalão, o financiamento com um caixa 2 do partido de petistas e a montagem do frustrado dossiê para minar concorrentes tucanos. Presidentes costumam ser bem informados.
Lula nega tudo e alterna queixas de traição, comparando-se ora a Jesus Cristo, ora a Tiradentes, com ataques a uma suposta campanha da imprensa, às elites (o vocábulo sacado pelo PT sempre que lhe falta argumentos) e à oposição, que está batendo duro mas a maior parte do tempo oscilou entre a soberba, certa de que o presidente estaria liquidado, e a inépcia. Ao acordar para o jogo quase ganho por Lula se desesperou e assumiu a retórica do PT na oposição.
A dúvida que há é se, conhecendo o projeto petista – mais de sua ala sindical que política -, de se infiltrar no miolo do governo, Lula teve parte com o que fizeram ministros, dirigentes do PT e, agora, até gente de sua cozinha, ou se todos agiram por conta própria, como uma orquestra ritmada por diferentes partituras.
A harmonia seria nenhuma e é precisamente por isto que a letra da opereta petista não se encaixa direito na trama mas, assim como se dá com as óperas italianas assistidas por turistas, quem liga para o que significa a cantoria? A apatia de grande parte do eleitorado disposta a ainda assim lhe dar o voto incomoda os adversários do atual governo e está a tirar do sério bom pedaço da imprensa, que se descobre menos influente e formadora de opinião do que supunha e admite, mesmo que Lula atraia uma maioria de desinformados.
As teses se sucedem e logo vão surgir catataus acadêmicos, com ou sem reeleição, com explicação para tudo. Uma hipótese já arrebanha adeptos: a do mito, bem defendida pelo jornalista Roberto Pompeu de Toledo, em Veja. “Tem-se atribuído a popularidade de Lula a razões que vão das benesses do Bolsa Família à desinformação da maioria da população. É mais que isso”, escreveu. “Lula não é um político. (...) uma pessoa. É um mito. É o retirante nordestino e operário metalúrgico sem um dedo que virou presidente, discursa na ONU e passeia de carruagem com a rainha da Inglaterra.”
A mágica de Lula
Faz sentido isso do mito. Como também que seu jeito tosco agrada muitos que se imaginam identificados com ele, sem razão política alguma, até sem levar em conta o troco de programas assistenciais.
Lula é o Brasil profundo, inculto, esquecido pelos políticos, mas que sem ser revoltado é indiferente à liturgia da ascensão social e ao conceito da ética. Quer se dar bem, do jeito que a vida lhe favorecer, e seguirá quem lhe der alguma certeza de que não vai esquecê-lo. Essa é a mágica de Lula.
Muito além do mito
Seria pouco e já estaria escorraçado, porém, se fosse só isso, um a mais a prometer o céu na terra, especialmente à véspera de pedir o voto dessa gente. Se está firme junto a tal eleitorado, numeroso no Nordeste e nos fundões, apesar da exótica mistura de gatunagem e sem-vergonhice de uns tantos com devaneios socialistas de orelha de livro de outros poucos, é porque transcendeu o mito.
Estará no altar, santificado, enquanto der ao deserdado o que nunca teve, e de lá perderá fiéis quando não mais puder corresponder aos anseios desses devotos.
Não é Lula assim que se torna perigoso, se tirado do poder pelo voto esclarecido. Mas os milhões que permitiu provar um naco do moderno consumismo – e gostaram.
Fim da cosa nostra
É uma armadilha a que o país foi arrastado pelos excessos sociais do governo Lula? Depende. Se a inclusão dos pobres for vista como fortalecimento do mercado interno e redução de desigualdades, não, claro que não. Mas tratados como curral de um partido, que, além disso, se assenhoreou de porções do Estado como “cosa nostra”, sem prestar satisfação a ninguém, apenas ao aparelho sindical, aí sim se estará diante de uma armadilha.
Se reeleito, Lula parece que já decidiu: com a autoridade da reeleição, se livrará dos vendilhões petistas, que hoje de algum modo aprisionam suas mãos, e cobrará uma limpeza geral. Não pode é governar com um PT permanentemente sub judice, tocado por figuras opacas só conhecidas pela polícia.
Ele dará ouvidos, reelegendo-se em 1º de outubro, aos que estão a aconselhá-lo a não continuar refém do lado escuro do PT, sobretudo de sua vertente sindical à qual se liga historicamente, para ter autoridade diante do PMDB, um ogro fisiológico, com o qual espera formar maioria parlamentar? Os próximos dias darão a resposta.
As cartas já estão dadas, de acordo com o que escreveu Wanderley Guilherme dos Santos, intelectual influente junto ao governo. “É inadmissível”, advertiu, “que um partido com a representatividade social do PT tenha a sua vida no dia-a-dia administrada por personagens cujos nomes de batismo e poder só venham a ser sabidos quando dão entrada na polícia”. E segue: “O capital biográfico do presidente não pode servir de fiança às malfeitorias de burocratas desqualificados. O presidente deve muito aos seus companheiros de jornada, mas deve infinitamente mais aos milhões de desconhecidos que nunca o viram” e o elegeram.
Não poucos no PT endossam o que Wanderley escreveu. Falta Lula. Se o fizer, o clima se desanuvia.