Inflação de 3% em 2006 mostra quão erradas estavam as bolas de cristal dos mercados e do BC
Tivesse previsto em tempo a forte desinflação e o BC certamente teria desinchado ainda mais a Selic
12.09.2006 - 19:20
Antonio Machado
Com máxima e mínima, variando de 2,5% a 6,5% a meta de inflação de 2006, desde o ano passado ninguém mais falava nem se importava com o limite superior, considerado absurdo – embora antes do Plano Real, em 1994, equivalesse à variação de preços de um mês e até de uma única semana -, e do piso, muito menos. Ao Banco Central, cuja principal tarefa é atingir esta meta estabelecida anualmente pelo governo, já se dava como bom demais se a levasse convergir para o seu centro, 4,5%, um pouco mais, possivelmente. Todos erraram, até a diretoria do BC, que influi sobre os preços por meio da Selic.
A centena de bancos e consultorias ouvidas a cada semana pelo BC agora já fala em variação entre janeiro e dezembro do IPCA, a medida oficial de inflação, de apenas 3,32%. O IPEA, instituto de estudos do Ministério do Planejamento, no mesmo balanço em que reduziu para 3,3% o provável desempenho do PIB este ano (e 3,6% em 2007) também encolheu para 3,3% a variação da inflação acumulada em doze meses até dezembro. A Tendências, mais otimista, reviu a projeção do IPCA para 3,2%. O Bradesco, para 3,1%. Internamente, há bancos supondo a variação efetiva perto do piso da meta.
O que se conclui dessas previsões? “A inflação está morta”, disse o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Júlio Sérgio Gomes de Almeida. O ex-ministro Maílson da Nóbrega também não vê riscos. “A inflação foi derrotada definitivamente”, é o que imagina. A coluna compartilha tais hipóteses, mas é mais comedida.
Numa economia fortemente oligopolizada, com partes importadas formando mais de um terço do processo produtivo em vários setores e muitos preços importantes influenciados pelo mercado externo, além do esmagamento fiscal pelo governo, qualquer desajuste tira a formação de custos da rota e, em seguida, a inflação. Tipo o que? Basta uma restrição de liquidez externa ou um aumento de imposto.
A conclusão imediata a se tirar da tendência da inflação é que os cenários utilizados pelos bancos, consultorias e o próprio BC são bastante imperfeitos. Variações tão grosseiras entre a realidade e o que estava projetado, como as detectadas no desempenho do PIB e da inflação, evidenciam as falhas dos cenários sobre a economia e, sobretudo, a deficiência das premissas assumidas.
Se pudesse ter previsto em tempo a forte desinflação, certamente a diretoria do BC, isto é, o Copom, já teria desinchado ainda mais a Selic.
Processo duradouro
Uma análise do departamento de economia do Bradesco avalia que os riscos associados à inflação são “muito baixos”, ainda que cresçam à medida que as reduções dos juros conduzam ao fechamento do tal do “hiato do produto” – ou, em linguagem corrente, que o consumo aumentando aos poucos esgote a utilização da capacidade instalada.
Para os economistas do banco, o “processo de desinflação é mais duradouro”, sinal de que a economia crescerá ao redor do potencial em 2007. Isto é: nada de cogitar espetáculo de crescimento do PIB, coisa de 4% a 4,5% para mais no ano que vem. Se essa assunção faz sentido, tem muita bobagem sendo pensada no governo para 2007.
Consumo sem fôlego
A formulação da equipe econômica do Bradesco dá a dica do que vai pela conjuntura. “Se a atividade ainda não respondeu fortemente aos estímulos monetários [leia-se: a queda progressiva da Selic], isto se deve ao fato de este ser o crescimento possível [do PIB] para o país”.
Imagine a situação de um alpinista sem fôlego, mas ainda com, digamos, um quarto de escalada para chegar ao pico. Ele pode descansar e seguir em frente, se o tempo ajudar, ou recuar.
O alpinista é o nosso consumidor de classe média. Impostos, tarifas e serviços típicos de sua situação social exauriram suas reservas. De onde está só sobe se arrastando. Ou com crédito barato, função de renda e juro baixo. Equivale ao tempo bom para o alpinista.
Mudança estrutural
Sem estímulo externo, a economia não se desenvolve. O padrão de consumo regularizado passa a ser outra condição antecedente para a volta do investimento privado em larga escala. Ao que se adiciona a seqüência da análise do Bradesco: “após o ajuste externo dos últimos anos e a conseqüente apreciação cambial, verificamos um processo de realinhamento dos setores produtivos em que novos setores liderarão o processo de crescimento”. Se é provável que nem este diagnóstico seja consensual, imagine a solução.
Vai-se percebendo que se aproxima a hora da verdade, à medida que são afastadas todas as ilusões que encimaram hipóteses acadêmicas nas últimas duas décadas.
Dizia-se: elimine-se a restrição externa que a economia dispara. O país tornou-se exportador de capital, e o crescimento não veio.
Mas é a inflação! - gritaram depois. O Plano Real aleijou a hiperinflação, e o conservadorismo seguido anos a fio pelo BC trouxe o inimaginável: inflação européia para economia com cara e boca de africana.
É a dívida pública, então, especulou-se. E tome superávit primário - que estancou a dívida. E o PIB? Como sempre, a passo de tartaruga, um impávido colosso.
No meio termo disseram que o país precisava de ajuste fiscal, e tome aumento de impostos e de tarifas (para eliminar os subsídios às antigas estatais privatizadas).
E ficamos assim: com overdose de juros, impostos, a classe média (único contribuinte tributário líquido, isto é, paga mais aos governos do que recebe em troca) depauperada, incapaz de liderar um novo ciclo de crescimento, que os mais pobres, embalados por óbolos oficiais, não conseguirão.