Eventual 2º governo Lula exclui o PT como protagonista e exige desafios dantescos
Pesquisas antecipam reeleição, mas sem delegação para Lula fazer e dispor, apesar do Congresso baleado
08.09.2006 - 17:00
Antonio Machado
Com 1º ou 2º turno da eleição presidencial, a hipótese de Lula se reeleger, fortíssima a esta altura, mas não 100% certa pois o jogo só termina quando acaba, segundo a filosofia de botequim, já o faz e a todos os que o apóiam pintar e bordar o cenário de seu segundo mandato, o que é mais nebuloso que sua provável vitória. Cautela é que não faria mal até para que a vertigem do sucesso não o impeça de apartar o apoio extraordinário recebido graças à incompetência dos adversários do resultado de seus méritos inegáveis.
O roteiro de um novo governo é sabido: começa com a formação do ministério, expressão de apoios de partidos e grupos arrebanhados no Congresso renovado, e empina ou desmonta já na saída dependendo da qualidade da aliança em seu entorno e do programa do mandato. O que se tem sobre isso até agora, fruto de vazamentos propositais a fim de se testar a receptividade dos donos do poder, é mero desejo dele próprio e da cozinha palaciana.
Não há cenário, por exemplo, que exclua o PT como protagonista deste suposto segundo mandato, o que já dá uma medida sobre quão longe Lula e seus auxiliares ainda estão do mundo real que virá à luz das urnas de outubro.
O presidente está com os pés firmes ao dizer que vai governar com o PT e PMDB, mas precisará mais que isso para chegar a dois terços do Congresso e assegurar a continuidade das reformas que mudam fatias da Constituição. Também não o ajuda imaginar que o PT de 2002 terá chances de sobreviver em 2007.
O partido estará menor em bancada, como demonstra seu provável pífio desempenho nos estados segundo as pesquisas, e também de ambição, pois protelou a lavagem de roupa suja dos seus mensaleiros.
Como está o PT é mais ônus que solução para Lula, que se agrava à medida que parte dos líderes remanescentes renega a atual política econômica, razão da estabilidade de seu mandato.
Ele pode se mostrar tranqüilo em relação às contas públicas, mas em 2007 terá menos do que tem hoje, se não submeter a outra rodada de reformas os benefícios previdenciários, o maior sangradouro de recursos que poderiam estar aplicados tanto em assistência social como em educação, saúde e infra-estrutura. Aqui é o seu Rubicão.
Sucesso e fracasso
O déficit previsto de R$ 41 bilhões da Previdência para este ano, mas que parece subestimado, é o que, no fim do dia, estufa a conta de juros sobre a dívida pública e, analisado a seco, expressa o que o país perde por ano, cerca de 2% do PIB, em investimentos federais.
Com o que ele poderá contar para encarar este difícil problema? A dimensão dos problemas é que indica o tipo e força da coalizão que poderá ter de armar para governar e antecipa o fracasso ou sucesso dessa gestão, dependendo da importância que ela dê a tais problemas.
Pobre com voz ativa
O estoque de bondades na área social, puxada pelos desembolsos do Bolsa Família, já atingindo 12 milhões de lares, e os aumentos bem acima da inflação do salário mínimo, que significam uma injeção na veia do déficit da Previdência, praticamente bateu no limite.
Como o que é gratuito na área pública logo vira obrigação, ou Lula revê para os pobres a política de assistencialismo direto ou aos poucos verá corroída sua popularidade junto a essa fatia majoritária da população, que sairá das eleições ciente de seus direitos e pronta a pedir mais.
Para atendê-la, sem ampliar o divórcio já aberto com a classe média esmagada por impostos, tarifas e juros, só há um caminho: a criação de bons empregos, cuja viabilidade depende de a economia retomar a capacidade de crescer movida por investimentos.
Desafio dantesco
O desafio é dantesco e por isso se compreende o minueto de Lula na corte ao PMDB para que o partido perca sua feição de ameba, uma confederação de caciques estaduais, e adquira um projeto nacional com vistas à sua sucessão em 2010. O PMDB precisa de um projeto que o galvanize e de um nome que o leve até lá.
O governador Aécio Neves, virtualmente reeleito e cardeal do PSDB, é o preferido de Lula e das várias alas peemedebistas. Não se trata de um devaneio político sem intenções. Mas de uma costura sofisticada para que o PMDB troque sua maior característica, o fisiologismo sem limites, na fronteira da corrupção, por uma meta maior. Reformar o PMDB é coisa para gigante, tanto quanto tirar Aécio do ninho tucano. Sem grandes objetivos, porém, Lula poderá começar mal e encolher.
Se os exercícios ouvidos de assessores palacianos sobre a dança de cadeiras deste hipotético 2º governo Lula fossem críveis, nem se precisaria dar ao trabalho o presidente de fazer campanha. Com sua retórica direta sem intermediação com o povo e ataques ferinos ao PSDB e PFL, sobre os quais disse em comício em Ceilândia, nas margens de Brasília, que “estão tão irritados, estão tão-tão, que chegam até a babar de raiva”, Lula demonstra apreensão de ter que entregar mais do que estaria disposto para formar o novo governo.
Mas é isso mesmo que está em jogo nas urnas, em se confirmando o que antecipam as pesquisas: Lula reeleito, mas sem delegação para fazer e dispor, ainda que se aproveite da sombra da péssima imagem que a atual legislatura legará ao novo Congresso.
Se reeditar 2003 e fizer da agenda de reformas econômicas e de gestão do Estado um programa seu, terá enorme chance de acertar. A economia está numa encruzilhada: ou dispara para o bem ou chafurda na estagnação. Se acreditar que o populismo o permite governar a sós, com Congresso outra vez subjugado, estaremos fritos. Lula conhece os riscos.