Apostas sobre o PIB do ano convergem para 3% e reeditam o pára-anda da economia sufocada
Aumento médio no governo Lula seria de 2,67%, melhor que na era FHC mas metade do crescimento mundial
06.09.2006 - 19:55
Antonio Machado
Da última safra de notícias sobre a macroeconomia, a constatação de que o produto interno bruto voltou à mesma pasmaceira de vinte e tantos anos, crescendo apenas 0,5% no segundo trimestre sobre o trimestre anterior, é a que calou mais fundo, apesar de também ter vindo a público a proposta orçamentária do governo para 2007, esta sim a resultante e origem de tudo o que repercute na economia. Mas o normal é isso: dar-se ênfase ao efeito e não à causa dos males.
O que talvez mais tenha chocado no PIB magrinho do trimestre foi a verificação de que nem num ano eleitoral marcado por decisões e gastos do governo muito além do razoável, coincidindo com a queda progressiva dos juros do Banco Central, acertos salariais em média acima do INPC e crescimento embora perdendo força do crédito ao consumidor, a economia ganhou pique, frustrando analistas e muito mais o próprio entorno do presidente Lula.
No Palácio do Planalto, aposta de desempenho do PIB menor que 4% este ano não era sequer cogitada. Preocupação era com o que fazer com o orçamento de 2007, cujo déficit nominal (isto é, incluído os juros e encargos da dívida) já é endêmico e tende a ficar um pouco mais longe do equilíbrio, enquanto vai caindo a ficha de que só o superávit primário (a economia dos gastos antes da conta de juros) é esforço insuficiente – ou melhor, precário – para a mudança dos paradigmas fiscais no país.
A luz vermelha está piscando porque a proposta orçamentária embute a estimativa de crescimento de 4,75% do PIB em 2007, o que se configura irrealista se o produto agora já fraqueja e deixará como legado em dezembro uma economia morna. Na revisão do desempenho do PIB, o IPEA, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, ligado ao Ministério do Planejamento, reduziu para 3,3% o crescimento esperado este ano e para 3,6% em 2007.
O departamento econômico da filial brasileira do Credit Suisse, que vem revelando um alto grau de acerto dos índices macro, não espera nada além de 3% para o PIB este ano (com o que o Banco Itaú também concorda). E isto já contando com a recuperação da produção no terceiro trimestre, que pela bola de cristal do banco crescerá 3,6% em relação a igual período de 2005 (acima, portanto, do 1,2% no segundo trimestre contra o mesmo trimestre do ano passado e de 3,3% de janeiro a março sobre o mesmo período anterior).
A maior atividade econômica neste trimestre, de julho a setembro, segundo esta análise, requer da indústria um crescimento de 2% em relação ao trimestre anterior, quando, na mesma base, recuou 0,3%. O cenário ficaria assim: o segundo semestre melhor que o primeiro, mas sem gás para impulsionar o PIB em doze meses até dezembro além de um magro crescimento de 3%. É a economia engasgada.
O Brasil na África
O aumento médio do PIB no governo Lula, confirmando-se a previsão de 3% este ano, seria de 2,67%, acima do 2,57% obtido no primeiro mandato de Fernando Henrique e bem mais que os 2,12% no segundo. O padrão do crescimento pára-anda, porém, estará mantido. Desde 1981 o PIB cresce à média aritmética (para simplificar) anual de 2,65%; o mundo, em 26 anos, o dobro disso.
Em taxa composta, o PIB mundial, segundo o FMI, aumentou 32,95% nos últimos sete anos a partir de 2000, ou 4,15% ao ano em média.
O PIB dos países emergentes, afora Brasil, avançou 50,43%, 6% ao ano. E o Brasil? Medíocres 19,85%, 2,62% ao ano - 56% abaixo das economias emergentes e 37% menos que a economia mundial.
A seguir essa batida, os países emergentes vão dobrar o PIB em doze anos. O Brasil, em 27 anos. Se nada mudar, àquela altura seremos a África.
Deus é brasileiro?
Por que o mundo cresce, especialmente as economias emergentes, e o Brasil empaca? Há muitas maneiras de se dar essa resposta. Mais prático é verificar o que o Brasil difere dos demais emergentes.
É o que tem mais riquezas naturais, está menos sujeito a catástrofes e não apresenta conflitos étnicos e religiosos, comuns aos grandes emergentes. A Índia, por exemplo, candidata a bisar o mega sucesso econômico da China.
Se Deus é brasileiro, onde é que nos ferramos? No tamanho do Estado, que aqui nos custa 42% do PIB, pelo lado do gasto, e lá, quem mais gasta não passa de 30% do PIB. E pela falta de coesão política em favor do desenvolvimento.
Dinheiro não falta
Política social no mundo em crescimento é capitaneada por doses maciças de investimento público e privado, coisa para mais de 30% do PIB ao ano. Aqui, não passa de 20%, que vira 17% em dinheiro de 2003. Dinheiro há, mas a maior parte é gasta em repasses diretos a pessoas.
O déficit previdenciário vai sugar este ano não menos que R$ 41 bilhões. Se a conta estivesse equilibrada, o governo teria só para investimentos públicos pagos pelo orçamento a batelada de R$ 57 bilhões (já com R$ 16 bilhões do orçamento), quase 3% do PIB ou 4,5% com as estatais. Terá miúdo 0,6% a 0,8% do PIB. É por isso que o país estagnou. E o gasto público tem de diminuir.
O mal que assola o país é mais de incompreensão e ignorância, em parte de boa fé, sobre as seqüelas do Estado de bem estar num país que nunca conheceu o pleno emprego e se preocupou em legalizar os seus negócios. Ao contrário, jamais teve mais de um terço da mão-de-obra registrada em carteira, metade trabalha na informalidade e a marginalidade é dominante em vários setores meio que justificada socialmente devido ao peso dos impostos e encargos trabalhistas.
Apressados alegam que o Estado paga 8% do PIB em juros da dívida pública, bastando baixá-los para se afastar os fantasmas. Bobagem. O Tesouro paga 4,25% do PIB, o tal superávit primário, e rola tudo o mais, o que não justifica o nível dos juros. Mas o déficit total da Previdência corrigido pela Selic, desde 1995, equivale à dívida pública, quase R$ 1 trilhão, dinheiro que deveria estar alocado em infra-estrutura e justificando menos juros e impostos. É isso.