Receba a nossa Newsletter
e faça parte da comunidade
Cidade Biz.






Google
Web

    Cidade Biz


  Antonio Machado
Redução de juros e reformas administrativa e política, eis um bom tripé petista, segundo Dirceu

Proposta é esboço de programa de governo mais pés no chão e consistente que o do PT com turma palaciana

04.09.2006 - 19:32

Antonio Machado

O ex-ministro José Dirceu continua uma voz influente no PT, mas, para alguém como ele, que trazia o partido firmemente nas mãos e dava muitas cartas no governo Lula, não deve ser fácil ficar sem tribuna, ainda mais num ano eleitoral. Mas não está parado, move-se muito nos bastidores e reflete sobre os problemas do governo.

Ele está cassado, e não se conforma. Espera a decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a denúncia do Ministério Público de que era membro graduado do caso do mensalão, que continua negando enquanto uma mesada a políticos, embora reconheça o pagamento de dívidas de campanha e de partidos com fundos de caixa 2 - o tal “recurso não contabilizado” de que falava o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares.

À falta de uma função institucional, criou um blog, onde, se não rivaliza com o do prefeito do Rio, César Maia, que aprecia dar uma de ombudsman de candidatos à Presidência, ataca a oposição a Lula com gosto, sem sugerir conselhos ao presidente, e discute idéias e propostas. Dia desses, refletindo sobre as críticas ao programa de governo do PT, que promete crescimento econômico asiático sem se preocupar em apontar fontes de financiamento nem em propor cortes de gastos e redução de carga tributária, arriscou que “a conta só fecha” se os juros forem reduzidos, “e muito, e a máquina pública for reformada, e muito”. Interessante, vindo de quem vem.

“Redução de juros, reforma política e reforma administrativa, eis um bom tripé petista”, reforçou Dirceu. Tem um esboço de programa de governo nisso que fala o ex-ministro muito mais consistente e pés no chão que a proposta redigida pela cúpula do PT, em conjunto com a turma palaciana do presidente, em que soam inconfundíveis os velhos preconceitos, como a ascendência do papel do Estado indutor de decisões empresariais e a acanhada compreensão sobre os nexos entre as políticas monetária e fiscal.

Dirceu não parece chegar a tanto mas já está anos luz à frente do petismo de antanho ao questionar, a respeito da idéia do deputado e ex-ministro da Fazenda Antonio Delfim Netto sobre déficit zero do orçamento federal, que ela não é uma proposta simples. “O país precisará tirar de algum lugar R$ 72,4 bilhões (ou 3,59% do PIB), que é o déficit nominal que tivemos em julho no acumulado”, disse ele, revelando intimidade com a conexão entre os excessos fiscais, a dívida pública e a taxa de juros.

Lights versus duros

A se dar como certa a reeleição de Lula, reeditando-se o conflito entre petistas lights e duros para influenciar o governo, como se prenuncia pelo texto dos assessores palacianos na contramão do que sempre concebeu o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, pode ser estratégico envolver Dirceu no debate pela sua influência no PT.

Suas opiniões foram postas no contexto de entrevista de Delfim em que o deputado revelava que Lula já estava determinado a adotar o programa do déficit zero, mas aí veio a crise do mensalão. “Essa é uma discussão que, como ele [Delfim] disse, está sendo feita de maneira reservada, mas precisa ser pública e transparente”, disse.

Princípio universal

Bom passo adiante já será Lula parar de achar que falar em choque de gestão é dar o braço à oposição e admitir que falta qualidade administrativa ao governo - e, também, inferir que corte de gasto é apenas e necessariamente o de programas sociais.

Gestão nota 10 é um princípio universal, não específico de grupos. E sabe bem ele que nesse quesito o governo mais se prejudica se nada fizer. Já o gasto é vasto e tem muito lugar para cortar, num orçamento fiscal de mais de R$ 500 bilhões. Qualquer um bem intencionado acha fácil 10% desse montante para economizar só com método e processo.

A soma sem divisão

Muito gasto, além disso, nem precisa baixar. Basta crescer apenas pela inflação ou ser mantido seu valor como proporção do PIB. Faz-se um caminhão de dinheiro dessa maneira. Por fim, o ajuste fiscal é ou não uma política conservadora, dependendo do fim que se der à receita poupada. Direcioná-la ao investimento em infra-estrutura é uma política progressista, assim como fazer mais com menos despesa é uma providência sábia e esperta. Só tolos gastam às cegas.

A maravilha é que um governo leve, que nada tem a ver com a visão de Estado mínimo, e com mais dinheiro para investir é idéia-força irresistível à qual Dirceu parece atraído e que soma sem dividir.

A frustração do desempenho do PIB no 2º trimestre, quando cresceu mero 0,5% sobre o período anterior, é a chance para se entender o que faz a atividade econômica oscilar entre euforia e tristeza – aplicando falsetas aos pobres economistas do governo, que vivem a se surpreender e tentam sem convicção passar a idéia de que tudo vai bem. Os políticos deveriam estar vacinados dessa parolagem.

O problema, como explica o economista Fernando Montero, dos mais qualificados nos mistérios da macroeconomia, é que o investimento patina porque a agricultura está sem renda, a indústria não tem câmbio e o governo não abre espaço para o gasto privado (leia-se: o investimento empresarial). Essa é uma equação de ajuste fino.

O que se tem é que “os preços [câmbio, juros, impostos] e as opções de política econômica favorecem o consumo, não o investimento e a produção”, diz Montero. Num quadro como esse, “o PIB baixo torna o aumento das importações mais sério, o avanço da carga tributária mais custoso e o recuo da inflação menos estrutural”.

Despindo-se o debate de ideologias, fica claro o que fazer. Dirceu vai por aí.


versão para impressão
envie a um amigo

  Antonio Machado


Parceiros
Energia Mídia © Todos os direitos reservados


  últimas