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Inadimplência e perda de fôlego do PIB reforçam necessidade de forte redução do gasto público

Consumo doméstico ainda está longe de substituir contribuição do setor externo para o crescimento

22.08.2006 - 19:51

Antonio Machado

O reconhecimento do nível elevado de inadimplência do consumidor, depois do grande sucesso do crédito vinculado ao desconto na folha de salários ou de aposentadorias do INSS, trouxe de volta o receio de que o vôo da economia será tão curto como sempre. Aliás, apenas um pouco mais turbinado, este ano, devido ao gasto público atípico do governo para adubar a candidatura à reeleição de Lula e que não deverá repetir-se ano que vem. Sem isso, seria mais raquítico.

O boletim Focus, do Banco Central, que recolhe as expectativas de bancos e consultorias semanalmente sobre os principais indicadores da economia, já mostra que os mercados começam a saltar do cenário otimista que o ministro Guido Mantega vinha pintando - coisa de 4% a 4,5% de crescimento do PIB, fechando razoavelmente bem o mandato de Lula, que começou com o PIB evoluindo magro 0,54% em 2003, 4,9% em 2005 e 2,3% no ano passado.

Um mês atrás, o Focus projetava para o PIB o crescimento de 3,6%. Nesta semana, a estimativa já estava reduzida a 3,53%, com viés de baixa, enquanto no mundo o crescimento está estimado em 4,9%. Há quem espere resultado mais medíocre, como os economistas do Credit Suisse, que trabalham com previsão de 3%, resultado da combinação do aumento da produção agrícola de 2,4% (0,8% em 2005), 3,8% da indústria (2,5% em 2005) e 2,4% de serviços (contra 2%).

Dos três principais componentes do PIB, a maior frustração deverá ser da indústria, da qual o governo esperava crescimento de 4,5%, pelo menos. O Focus ainda estima 4%, mas o número parece defasado.

Tais revisões de cenário antecedem a progressiva deterioração da situação de crédito dos consumidores, relacionando-se com o PIB do segundo trimestre, cuja evolução será divulgada pelo IBGE dia 31.

Na projeção do Credit Suisse, a taxa de crescimento do PIB do 2º trimestre em relação ao 1º recuou para 0,6% (e 1,4% em relação a igual trimestre de 2005). Nos últimos quatro trimestres encerrados em junho em relação à mesma base terminada em março, a aceleração do crescimento teria baixado de 2,4% para apenas 1,8%.

Sem gás para mais

O dado negativo, na série, seria o comportamento da indústria, na previsão do Credit Suisse, com queda de 0,5% a 1% no 2º trimestre, contra expansão de 1,4% de janeiro a março.

Na raiz do esfriamento da economia há quatro fatores: 1º, redução da taxa de crescimento das exportações; 2º, a ocupação de fatias do mercado interno pelas importações; 3º, a volta do crescimento de estoques (indicativo de que muita gente acreditou no aquecimento do consumo); e 4º, a taxa de investimentos continuar estagnada.

A conclusão é que o consumo doméstico ainda está longe de poder substituir a contribuição do setor externo, cadente pela apreciação do real, que de 1999 a 2005 respondeu por mais da metade da taxa de crescimento da economia.

Apostas furadas

Vão caindo por terra, assim, as apostas da atual equipe econômica do governo de que a química de aumento de crédito com maior gasto fiscal e redução da taxa de juros criasse uma situação duradoura de crescimento da economia, que levaria a indústria a preencher a capacidade instalada. O resultado viria com um forte impulso do multiplicador de emprego e da taxa de investimentos na produção.

O governo, porém, apenas promoveu transferências de renda, sem agir sobre nenhum dos fundamentos desencadeadores de uma nova etapa de crescimento sustentado, que tem de vir pela desoneração fiscal da produção e diminuição da fatia do gasto público em relação ao PIB, para a sua ocupação pela demanda privada. Sem isso, é inflação.

O risco de Lula

O quadro que se apresenta, embora menos otimista do que imaginava o governo, tem a vantagem de afastar as ilusões de que é possível restaurar o crescimento acelerado do PIB, mantida a prioridade do setor externo, sem forte redução das despesas do Estado. É bom que tal consciência se forme mais cedo, sob pena de o novo governo já começar empacado no Congresso.

A economia está semi-estagnada por vir há anos movida apenas por estímulos ao consumo, entre os quais se incluem os programas de transferência de renda, ao crescimento do gasto de custeio do Estado e, mais recentemente, pelo início da perda do dinamismo do setor externo sobre o investimento.

O risco é Lula dar ouvidos a quem ignora essas relações sutis da economia. Seu possível segundo mandato, nesse caso, será uma decepção.

Quimera, por exemplo, é o estudo do economista Amir Khair, muito próximo de setores do PT, segundo o qual o déficit da Previdência Social poderia ser sanado apenas com gestão e crescimento do PIB – tema para outra coluna. Ele diz que as despesas previdenciárias foram de 5,39% do PIB em 1995 para 7,5% em 2005, crescendo 2,15 pontos de percentagem, enquanto as receitas subiram apenas 0,16 ponto.

No período o crescimento médio do PIB foi de 2,2% ao ano. “Caso a economia tivesse crescido 5,3% ao ano, o déficit seria zerado apesar dos aumentos dos benefícios ocorridos na década”, concluiu Khair em seu estudo preliminar.

A questão é essa: por que não cresceu acima de 2,2%? Quem tiver a resposta terá a chave para tirar a economia da estagnação. Khair não cogita que, entre as causas da estagnação, estejam os déficits do setor público, inclusive da Previdência, cuja cobertura desvia recursos da assistência social e da saúde, outros dois pilares do sistema de seguridade no país, além de encolher a capacidade de o Estado investir em infra-estrutura. O problema é esse.


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