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Inadimplência de pessoas é recorde, mas Brasil está pronto para nota máxima de bom pagador

Contradição de cenários começa a incomodar agências de rating, porque país já faz por merecer o upgrade

21.08.2006 - 19:19

Antonio Machado

A análise de risco de crédito é uma atividade altamente lucrativa em todo mundo, e também cresce muito no Brasil à medida que mais e mais pessoas se endividam, no rastro da maior facilidade do acesso ao crédito. A conseqüência é o aumento da inadimplência. A desdita de alguns é lucro para outros. Ganha-se ajudando bancos e comércio a se prevenir de maus pagadores - um dos principais condicionantes dos juros cobrados nos empréstimos bancários e de financeiras.

Ainda agora um dos mais antigos avaliadores de risco no país, o Serviço de Proteção ao Crédito, SPC, ligado ao varejo e rival da Serasa, empresa mantida por bancos com funções semelhantes, alerta que o volume de inadimplência bateu em julho o seu nível recorde, com um estouro de 90% sobre julho de 2005. Eis aí um fenômeno datado e que já estava precificado nas taxas de juros. A banca nunca perde.

Houve uma convergência de fatores que fez empinar o papagaio das dívidas. A expectativa de que a inflação virou um tigre sem dentes aumentou a confiança na queda da Selic pelo Banco Central, levando o sistema financeiro a se voltar para o que há muito tempo deixara de fazer em grande escala: conceder empréstimo pessoal e financiar o crediário de lojas e de cartões de crédito.

Na ponta passiva, o comércio aumentou o número de parcelas, embora tenha baixado muito menos os juros, atraindo para as lojas o consumidor do piso da pirâmide de renda – os mais beneficiados pelos programas sociais do governo e que deverão votar, por isso, em Lula.

“Essa nova classe de compradores, ao buscar os prazos dilatados, arrisca-se à inadimplência”, explica Araken de Carvalho Novaes, o presidente do SPC Brasil. O fôlego financeiro desse consumidor não só é menor, devido à sua baixa propensão à poupança, como também é o mais suscetível ao desemprego. Muitos trabalham na informalidade e se sujeitam à instabilidade típica da economia marginal.

Mas o crédito consignado já se faz presente nos cadastros do SPC. Embora as liberações ainda cresçam a taxas significativas, o ritmo de expansão é cadente, revelando o esgotamento da fatia do crédito com os menores juros da praça. “Quando quem ganha mil reais ao mês compromete 30% dessa renda, precisará aprender a viver com R$ 300 a menos por certo tempo”, diz Novaes. A luta é essa.

Calote consignado

Este problema físico, fazer a renda doméstica caber dentro mês, pode agravar-se ainda mais e será uma dificuldade política, como se tornou na África do Sul, onde também se abusou do desconto de parcelas das dívidas bancárias diretamente na folha de salários.

A sorte para o presidente Lula, que fez do crédito consignado uma das marcas de seu governo, é que o problema só está começando. Se se reeleger, será cobrado por isso. Lula já pede providências.

BC segura os juros

O governo prepara medidas para tentar reduzir o juro bancário e vai anunciá-las antes da eleição. A idéia é melhorar a análise de risco de crédito pela expansão da central que já opera no Banco Central e dar portabilidade ao cadastro dos clientes a fim de ver se aumenta a concorrência entre os bancos. São medidas fracas.

Nem está na referência dos juros do overnight, a Selic, a causa dessa lambança dos bancos: o custo do dinheiro em níveis sem relação com nenhum outro grave desajuste da economia. Há o problema fiscal, mas também o há em outros países com déficits públicos até maiores e o juro real não passa de 2% a 5% ao ano. Aqui é de 10%.

O juro bancário vai desabar quando o BC parar de zerar a cada dia o caixa da banca por meio do overnight. Como está, é fácil demais para os bancos.

País quase nota 10

Se uma cartinha do SPC provoca calafrios em muita gente, o que o governo mais anseia é pela manifestação de uma outra espécie dos xerifes do crédito: as agências internacionais de rating, que estão para grandes empresas e países como o SPC está para pessoas.

A situação do Brasil é atípica: tornou-se 100% solvente frente os compromissos internacionais, já que as reservas superam a dívida total do Tesouro. Pelas medidas convencionais, faz por merecer o investment grade dessas agências, mas está a dois a três degraus do objetivo.

Com um bom ajuste fiscal em 2007, será difícil a elas manter o pé atrás e não levar o país a pular etapas. O dia em que isto acontecer, o Tesouro poderá girar a dívida ao custo de 2% a 3% reais ao ano e os “BC Funds” só vão depender da inflação.

O bônus do investment grade se manifesta pela liberação do fluxo de capitais de fundos de pensão e seguradoras internacionais cujos critérios de segurança os levam a seguir as avaliações de crédito das agências de rating, sobretudo a Standard & Poor’s, a Moods e a Fitch – que acaba de mudar seus conceitos, o que aumentou a nota de diversas empresas e bancos brasileiros.

Essas agências parecem estar cada vez mais incomodadas com o Brasil, que fez um brilhante ajuste externo, resultando no fim da dívida externa como fator de risco, mas se mostra inepto em promover o crescimento sustentado da economia sem a ameaça de ressuscitar a inflação.

É um claro diagnóstico de país onde o consumo em regime de pleno emprego supera a capacidade instalada da produção. Sabe-se quem é o agente desestabilizador: o gigantismo do custeio e dos programas do Estado em todos os níveis da Federação e nos poderes autônomos. Como não é a população nem as empresas que desta vez têm renda a entregar, via impostos ou inflação, é o governo que deve encolher. Para aumentar o investimento público e reduzir carga tributária.


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