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  Antonio Machado
A cada eleição se incorpora algo mais como valor nacional, como a repulsa à inflação e à pobreza

O aprendizado pelo eleitor sobre a boa política pública é um processo lento, mas está na direção certa

16.08.2006 - 18:21

Antonio Machado

Há uma constatação animadora que revigora as esperanças contra a sem-vergonhice da política e a vaguidão das propostas dos que se oferecem ao eleitor para renová-la: cada eleição, desde a primeira direta para a Presidência após a ditadura, em 1989, tem trazido, mal ou bem, a sua didática. E o que se aprende não mais se perde.

Apesar de ter estado à frente de um governo atrabiliário, Collor pôs na agenda nacional a questão da indústria sucateada, resultado do protecionismo contra a concorrência externa que, na prática, protegia a ineficiência, o lucro sem risco de um punhado de amigos do poder e excluía o país das correntes do progresso tecnológico, como a que se deu com a reserva de mercado na informática.

Collor cunhou a frase que virou legenda do fim de uma época, a que comparou os carros nacionais a carroças, e forçou a indústria a ter de voltar a se modernizar, o que salvou as que conseguiram sobreviver sem o processo iníquo de transferência de renda através de subsídios de juros e fiscais, protecionismo tarifário e acesso ao dinheiro fácil do BNDES, então um hospital de empresas.

Collor é lembrado pela corrupção e pelo seqüestro das poupanças, mas foi com seu governo que a economia voltou a se entender com o mercado e a dialogar com as forças da mudança que varriam o mundo.

A passagem de um mercado sem opções, abastecido por oligopólios e cartéis, para um outro mais rico em variedades e preços, implicou a entrada em cena de um novo protagonista: o consumidor com voz e direitos, que despertou para a antiga chaga nacional da inflação, àquela altura descabelada e fazendo em meio dia o que hoje se faz em um ano de variação de preços.

O mérito do tucanato representado por Fernando Henrique foi pressentir este anseio por uma moeda que preservasse o poder de compra e transformá-lo em um plano de ação: a reforma monetária que criou o real.

FH se elegeu em 1994 a bordo do Plano Real e se reelegeu também com ele em 1998. Mas não atentou para o custo de bisar o mandato: quebrou seus compromissos éticos, já que teve de barganhar com o Congresso, e Deus sabe como isso é feito, a emenda constitucional que permitia a reeleição, e ainda fingiu não ver que o artifício do câmbio valorizado, então o pé de apoio da inflação controlada, já estava minado.

Vieram a maxidesvalorização do real, o socorro do FMI, sem o qual o país teria ido à bancarrota, os juros postos nos céus, para impedir a volta da inflação e a fuga de capitais, e o desmonte da base de apoio parlamentar no Congresso.

Maus passos de FH

Os dois maus passos de FH em 1998 começaram a tirar do tucanato as chances de um terceiro mandato, que foram parar em Lula, que vinha de três derrotas seguidas, porque o petista moderou o velho tom carbonário.

Lula se comprometeu a respeitar contratos e a essência do Plano Real – em termos simples, com a estabilidade inflacionária – e, sobretudo, prometeu um novo modelo de relações entre o governo e os partidos. Este, dado o histórico denuncista do PT das transgressões da política, parecia a promessa mais fácil. As demais, diante da desconfiança mútua, não valiam dez centavos.

Inflação tira voto

Deu tudo errado: Lula acertou na economia e derrapou na ética. O que lhe pareceu mais complexo foi o que fez melhor porque ignorou as heresias pregadas há anos pelo PT e reconheceu na manutenção do poder de compra da moeda um valor nacional a preservar, assim como a competitividade da produção Made in Brazil.

Foi um aprendizado que migrou de um governo para outro: que descontrole inflacionário não elege ninguém. A estabilidade, além disso, é mais valorizada por quem menos tem para gastar, do que se extrai do governo Lula uma outra lição, que parece também veio para ficar: a satisfação das populações em nível de subsistência com uma ajuda monetária.

Aprendizado lento

Os mais pobres, assim como a cidadania percebida nos anos 90 como consumidora com direitos até maiores que os do capital, viraram atores políticos relevantes e não devem mais sair de cena os seus problemas, tratados com Bolsa Família e educação, que já desponta como a grande lição para 2010. Mas segue embaçada a compreensão de que o gigantismo do Estado é o que obsta o desenvolvimento social e econômico, e não o seu contrário, como Lula parece acreditar. O aprendizado é um processo lento, mas está na direção certa.

À medida que a sociedade começa a questionar a qualidade do gasto público, já não se satisfazendo apenas em ver punido o parlamentar escroque, surgem desbotadas propostas como a da queda da taxa de juros pela vontade imperial do presidente, como sugere a senadora Heloisa Helena.

Certamente ela ignora que a percepção de sua idéia é o calote da dívida pública, cujos títulos estão em poder não da banca, como afirma, mas da classe média que tem poupança aplicada em fundos de renda fixa. O eleitor amplia seu grau de informação, portanto, de influência, enquanto ainda há políticos com a cabeça nos anos 50 e 60, quando a dívida pública resultava de empréstimos bancários. Hoje, é feita em papéis colocados no mercado.

Atente-se que também surge a consciência de que a questão cambial vai deixando de ser um problema só de interesse do exportador para se transformar em tema social. Percebe-se que câmbio desvalorizado pode implicar perda de renda, se seus custos forem repassados, e o oposto também tem seqüelas, sob a forma de menos emprego.

Vai se formando a disjuntiva do eleitor melhor que o eleito. Isso não é mal.


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