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Ambev seleciona campeões, e antes dos 30 o jovem gerente já pode ter feito R$ 1 milhão

Sonho do sucesso profissional é realidade no fabricante da Brahma, Antarctica, Skol e do Guaraná

17.07.2006 - 19:14

Antonio Machado

Que tal ainda na faculdade ser contratado como trainee, formar-se já empregado com salário inicial de R$ 2.800, trabalhar uns quatro anos e aí por volta dos 28, 30 anos ter acumulado um pé de meia de R$ 1 com mais seis zeros na conta bancária? Pegadinha de TV? Para Elias Vitorino Machado, gerente de operações da Ambev, o sonho é a realidade no fabricante da Brahma, Antarctica, Skol e do Guaraná, entre outras marcas líderes de cervejas e refrigerantes.

“A média de idade dos profissionais da Ambev é de 25 anos e o próprio presidente tem 39, o que mostra porque a empresa pode ser considerada jovem”, disse Machado, durante apresentação ao Comitê de Jovens Executivos da Amcham, a Câmara Americana de Comércio de São Paulo, do estilo gerencial da maior cervejaria do país, hoje parte do grupo belga Imbev, também dirigido por brasileiros.

A Ambev reflete o estilo ousado e empreendedor dos acionistas Jorge Paulo Lemann, Carlos Alberto Sicupira e Marcel Telles, que a fizeram ser a número 1 do setor e depois, numa sofisticada troca de ações com o grupo belga Interbrew, com presença em quase toda a Europa, criaram a Imbev, de cuja direção estão à frente. Fiéis ao estilo renovador, levaram daqui para lá executivos tão jovens como os que foram promovidos para ocupar os lugares que deixaram vagos ao saírem para sacudir a velha dama européia do ramo de bebidas.

Foi um choque, mas positivo, como fora nas antigas Antarctica e Brahma que a trinca comprou nos anos 80, fundindo-as numa empresa única, a Ambev, que prosperou graças ao conceito de suas marcas de cervejas e refrigerantes, impecável operação de logística e pelas metas agressivas de crescimento. É a perseguição dessas metas que torna viável, segundo Machado, a ascensão rápida dos contratados recém-saídos da faculdade, não sendo raro juntar o primeiro milhão de reais com cerca de quatro anos de empresa.

O gordo prêmio é possível se o jovem executivo aplicar o bônus de desempenho a que fez jus em ações da Ambev. “Desta forma, ele se torna sócio da empresa”, disse Machado ao boletim da Amcham. Este esquema de renda variável é reservado aos níveis gerenciais.

Desempenho premiado

A paga vinculada a desempenho costuma ser atraente e hoje é comum em várias empresas nacionais. Surgiu nos EUA nos anos 60 e chegou ao Brasil trazido pelas multinacionais.

Esquemas mais agressivos e com elevado retorno para os negócios foram implantados por bancos de investimentos, origem do sucesso do trio de sócios da Ambev com o Banco Garantia, que venderam ao Credit Suisse.

Lá, Lemann dava especial atenção à produtividade, medida em resultados e negócios fechados, dos executivos selecionados para receber ações do banco.

Visionário perspicaz

Com o crescimento do Garantia, que foi a mais inovadora casa de investimentos privados do país, tornou-se comum executivos com 30 anos incompletos fazerem, num ano, US$ 1 milhão. Generosidade? De jeito nenhum. Just business, como se diz.

Tratava-se apenas de dar o premio justo ao desempenho superior, muito acima da meta. Como se deu em 1994, antes do Plano Real. Visionário, Lemann sacou que a economia passaria por grandes reformas e atrairia o interesse do investidor estrangeiro. Não perdeu tempo e organizou, no Rio, o que veio a ser o primeiro workshop de dirigentes de fundos, bancos e seguradoras de fora no país.

Com as reformas que vieram, o fundo que o Garantia organizara para captar dinheiro estrangeiro saiu na frente de todos, mostrando-se ativo nas privatizações.

Workaholic sem vez

Foi assim, com alto grau de exigências, mas sábios na recompensa, que os ex-Garantia construíram uma rede de negócios, que também inclui a Lojas Americanas e várias participações alocadas na GP, firma de investimentos criada após a venda do banco e da qual já se desligaram, negociando suas partes com os ex-aprendizes.

Fala-se que os rendimentos elevados na Ambev cobram o preço sob a forma de trabalho duro. De graça não seria. Mas além do razoável muito menos. Existe um banco de horas para controlar a quantidade trabalhada por cada gerente. “Há um limite que não pode ser ultrapassado, o que garante a qualidade de vida dos indivíduos”, diz Renata Bravo, coordenadora de Recrutamento da Ambev.

Está certo: o workaholic, viciado em trabalho, já era na empresa moderna. Mas o de camisa limpinha também. Tem de suá-la.

A fórmula da remuneração por desempenho os sócios da Ambev não a inventaram, mas a aperfeiçoaram, fazendo das vagas na empresa um troféu cobiçado cada vez mais a cada ano pelos universitários. O processo começa com a seleção anual de trainees, que atrai cerca de 20 mil jovens.

“Não exigimos experiência profissional, buscamos pessoas com potencial e dispostas a fazer qualquer trabalho na empresa”, diz Renata Brava. “Jovens comunicativos e que saibam se relacionar são os de maior chance na companhia.” A recompensa aos escolhidos é um salário inicial maior que a média de mercado.

Lemann, Sicupira e Telles são empresários muito bem-sucedidos, mas tão reservados quanto generosos. Gastam muito com educação, gerenciando um dos melhores e mais completos programas de bolsas no exterior para universitários, e se empenham, com fundos e ações afirmativas, pela melhoria da qualidade do ensino. Como eles há poucos no país: empresários com espírito público.


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