Investida de Bill Gates pode reavivar alcoolduto que Alckmin sonhou e Lula ignorou
Bilionário entrou no ramo de álcool nos EUA e estuda investir US$ 200 milhões no Brasil só para exportação
12.01.2006 - 17:32
Antonio Machado
O Midas da indústria de softwares Bill Gates, o homem mais rico do mundo, vem aí - e não é para anunciar uma nova versão de seus populares programas de computadores nem para engrossar o lobby em favor do Windows na velha rivalidade contra o sistema operacional aberto Linux. O que está de chegada é uma das empresas em que ele aportou uma fatia de sua monumental poupança para diversificar sua fonte de lucros: a Pacific Ethanol, baseada em Fresno, Califórnia, da qual é o maior acionista individual, com 27% do capital.
Gates, que não dá ponto sem nó nem queima dinheiro, é novato no setor, mas parece saber o que faz. O negócio do etanol é do jeito que ele gosta: o futuro é promissor, especialmente com o preço do petróleo nas alturas e muitos produtores nas mãos de governantes despóticos e doidivanas. A fonte de energia é renovável, além de ser ainda baixa a concorrência. E as condições de mercado tendem a favorecer a olipolização do fornecimento.
É um negócio em construção, embora esteja desenvolvido como fonte energética complementar no Brasil, Canadá, certos países europeus e em algumas regiões dos EUA, sobretudo Califórnia, onde o álcool, em geral de milho, é adicionado à gasolina à proporção de 1 para 10 litros, contra 1 para 4, aqui. Em nível internacional, porém, é só um mercado potencial, já que faltam garantias de fornecimento regular, apesar do esforço do governo brasileiro em se mostrar um potencial fornecedor confiável, e do interesse de países asiáticos e dos EUA em encontrar suprimento contínuo e seguro.
A Pacific Ethanol surgiu no radar de Gates como o transporte para este tentador mercado. Pagou relativamente pouco, US$ 84 milhões, por uma firma já estabelecida como distribuidora regional e com uma usina em construção, destino de seu aporte inicial, para a produção do equivalente a 830 mil barris de petróleo ao ano.
Em fim de novembro, quando este negócio se tornou público, alertamos que os interessados no Brasil deveriam apressar-se, já que Gates é o tipo de empreendedor que sonha e age grande. Agora se constata que o alerta fazia sentido: emissários da Pacific Ethanol já estão no país pesquisando a compra de usinas nacionais e a construção de destilarias de álcool a partir da cana de açúcar – fator de grande competitividade, já que o custo de produção é dos mais baixos.
Beberrão sem rival
Entre compra e construção, um analista de banco a par da incursão da Pacific afirma que a intenção é investir US$ 200 milhões. O objetivo, em princípio, não é participar do mercado interno, mas viabilizar a logística para criar um canal permanente de exportação de álcool para os EUA, mercado com consumo atual de 14 bilhões de litros, 3 bilhões menos que o produzido no Brasil nesta safra, e obrigado por lei do Congresso a chegar a um mínimo de 28 bilhões até 2012, conforme um cronograma de redução das emissões de dióxido de carbono pela frota do país.
Ou seja, beberrão sem rival, EUA, sozinhos, podem absorver toda a produção brasileira de álcool.
Tudo se encaixa na estratégia de Gates, que está no negócio por meio da Cascade, sua empresa de investimentos pessoais. O outro grande sócio da Pacific é a SC Fuels, um gigante da distribuição de combustíveis nos EUA. O planejamento estratégico, porém, sabe de duas dificuldades.
A primeira é produzir álcool renovável a partir de fonte barata, o que não há nos EUA, mas tem no Brasil. A segunda é como fazer chegar o álcool brasileiro aos consumidores no Hemisfério Norte com a mesma eficiência e segurança das frotas de petroleiros, uma operação integrada ente navios e oleodutos. Os primeiros existem. Mas os, digamos, alcooldutos, só há no papel. É aí que dois presidenciáveis podem ter seu papel.
Benção bilionária
O governador de São Paulo, estado que concentra a maior produção de álcool do país, Geraldo Alckmin, tentou unir à já encaminhada ampliação do porto de São Sebastião, que passa pela duplicação da rodovia dos Tamoios desde a serra até o litoral, um alcoolduto (em paralelo, talvez, com o oleoduto já existente da Petrobrás).
Ele diz que faltou apoio do governo Lula. Agora que o negócio pode vir a ter benção bilionária de Bill Gates, as esperanças se renovam – no mínimo, ficam mais viáveis para os novos governantes.
E depois o presidente se queixa de que a imprensa não tem olhos para as realizações de seu governo. É aquela história: o cavalo selado não costuma passar duas vezes pelo mesmo local. O Brasil já perdeu várias ondas de progresso. Está agora, com a agropecuária, cavalgando mais uma, mas a impressão é que os ganhos vão chegando graças ao esforço dos produtores e aos bons ventos que refrescam a economia internacional.
Planejamento para pensar mais alto parece que não há, e não se diga que o trabalho contra o protecionismo agrícola nos países ricos desmente a afirmação. O mundo vive uma era de rupturas tecnológicas, contra as quais não há barreiras.
Foi assim, com uma revolução de produtividade, feliz associação entre a modernidade no campo e a tecnologia de institutos estatais como a Embrapa, que o país virou grande exportador de grãos. Esse trabalho silencioso vale mais que bravatas de política externa.
É o caso da cana: para ser exportador de álcool, o país tem de dar resposta aos sérios problemas ambientais e sociais resultantes da necessária expansão dessa lavoura, hoje insuficiente para atender a demanda nacional e a externa ampliada, como quer Gates, além da produção de açúcar.
Mas tais discussões estão longe de acontecer fora da academia.
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